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Viva os mortos, abaixo o cemitério!

Ou a revelação de que pode ser muito difícil por estas bandas enterrar certos hábitos, mesmo que pouco saudáveis



Diogo Tavares*


Salvador, 25 de outubro de 1836


Convocadas pelos sinos de várias igrejas, as pessoas, vindas de toda a cidade, começaram a se reunir no Terreiro de Jesus. Eram, na quase totalidade, cidadãos profundamente religiosos ligados às mais tradicionais ordens terceiras de Salvador, como as do Carmo, da Saúde e Glória, da Lapinha, do Santíssimo Sacramento de Santana, além das ordens de mestiços do Boqueirão dos Pardos e de São Francisco do Rosário dos Pretos.


Do Terreiro de Jesus, a multidão seguiu para a Praça do Palácio, invadindo a sede do governo. Depois partiu em direção ao Campo Santo. Não ostentavam armas tradicionais, mas algumas carregavam pedaços de pau e ferramentas de trabalho, como pás, enxadas e picaretas. A maioria seguia com as mãos limpas.


Ao começar a subir a ladeira do Campo Santo, os manifestantes já contavam com grande adesão de populares, incluindo aí os curiosos. A presença de mulheres também crescia a medida em que o grupo se deslocava. Afinal, onde já se viu aquele negócio de afastar os mortos da igreja de Deus?


Na entrada do cemitério ainda não completamente concluído, um grupo de policiais e funcionários públicos tentou impedir o caminho dos sediciosos. Iniciou-se uma grande confusão, com os manifestantes, em número muito superior, aproveitando para derrubar muros, destruindo canteiros, jazigos, sede administrativa e tudo o mais que estivesse construído no local.


O motivo de tanta confusão tinha sido um decreto do presidente da província determinando que, a partir daquela data, os enterros só poderiam ser realizados em cemitérios e não nas igrejas, como acontecia até então. Todas as tentativas feitas nos últimos anos para mudar aquela prática tinham fracassado. No dia 11 de janeiro de 1801, um alvará enviado de Portugal recomendava a construção de cemitérios. Mesmo acatada a ordem, com a construção de um cemitério no Campo da Pólvora, em área posteriormente ocupada pelo Asilo dos Expostos da Santa Casa da Misericórdia, as pessoas com o mínimo de posses continuaram a enterrar seus entes nas igrejas. A outra era considerada uma última morada indigna. De forma que o local foi utilizado apenas para o enterro de negros escravos e condenados a morte pela justiça, como alguns membros da Revolução Pernambucana de 1817.


Com a revolta, o governo suspendeu o início de vigência da lei para o dia 7 de novembro do mesmo ano. Retomada a ordem, o Campo Santo foi concluído e passou a ser administrado pela Santa Casa em 1839, ampliando aos poucos o número de enterros no local. Os mais abastados, entretanto, continuaram a recorrer às igrejas até 1855, quando a epidemia de cólera morbus virou argumento irrefutável. Como poderiam famílias inteiras, inclusive crianças, freqüentar as mesmas igrejas em que vítimas da epidemia eram enterradas? E foi o presidente da província, Álvaro Tibério de Moncorvo Lima, que proferiu a sentença final, através de lei publicada no dia 3 de setembro de 1855.


"Atendendo a que na presente quadra é reconhecidamente nociva à saúde pública a continuação das inumações nos cemitérios e catacumbas das igrejas, tem resolvido que cessem os referidos enterramentos, salvo as exceções". As exceções, no caso, eram aplicadas a alguns religiosos.


Morria finalmente a prática, preservada durante mais 23 anos graças àquela insurreição de 1832. Capitaneada pelas irmandades, que não estavam dispostas a perder a receita extra obtida com os enterros, a revolta ficou conhecida como a Cemiterada.


*Diogo Tavares é jornalista e autor dos livros Breves Histórias da Dessemelhança e Notícias de uma Terra Dessemelhante.


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