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Uma viagem à Montanha dos “castelos”


Parte 2*


Diogo Tavares e Sebastião Valença Filho**


O recém iniciado projeto de reforma e revitalização das construções sob os arcos da Ladeira da Montanha pode ajudar a revitalizar uma das regiões mais antigas da habitação de Salvador. Escavada na rocha para ligar a então Rua do Ourives ao Largo do Teatro, a ladeira teve sua pavimentação inaugurada em 1885 e, por ligar as cidades baixa (o porto e o comércio) à alta (as moradias), abrigou inicialmente sobrados de grandes negociantes. Com a mudança da burguesia urbana para outras áreas da cidade e a efervescência do porto, passou a ser cenário da vida noturna e abrigou casas luxuosas de prostituição. É uma história que se estende a boa parte do que hoje é o Centro Histórico e que, com ajuda dos cronistas da época, se incorporou ao anedotário da cidade.


A Rua do Colégio, que deixou de existir com a construção da Praça da Sé, abrigava a casa de dona Clélia. Em cadeira de rodas, seu Zazá comandava um castelo muito considerado. Na Ladeira da Montanha, havia o famoso 63, capitaneado por Dulce. Nos anos 50, o "dancing” de Simara marcou época, em frente à Casa dos Sete Candeeiros, assim como o Saionara. Não há literatura específica, mas Salvador chegou a abrigar dezenas de "casas de raparigas" na região do Centro Histórico.


Algumas geraram casos engraçados. O castelo de dona Clélia ocupava um sobrado de dois andares na rua em frente ao Colégio dos Jesuítas. Casada com um alfaiate, de nome Jesus, ela ocupava o andar superior do imóvel, enquanto o marido atendia os clientes no térreo. Seria quase normal, não fosse a especialidade de Jesus justamente fazer batinas. Apenas num trocar de portas, o entra e sai de padres e meninas no imóvel era motivo de piadas por toda cidade. Havia até quem jurasse existir uma passagem entre os dois estabelecimentos. Ainda mais com aquela quantidade de batinas penduradas nos cabides.


Um outro caso de repercussão é o de um conceituado juiz de direito que preferia despachar de uma das mesas da casa de Simara. Todos os dias um oficial de Justiça chegava com uma pilha de processos, que o juiz tratava de analisar entre um gole e outro de cerveja. Eventualmente parava para apalpar as nádegas de uma menina que passava, mas nunca se soube de um erro de avaliação do juiz.


Também é curioso o caso de dona Dulce, que "fez a vida" e se tornou dona de castelo. Durante anos, ela manteve a filha estudando interna em um colégio de freiras, que pagava fartamente com o dinheiro do brega. Talvez apenas a filha não soubesse a origem do dinheiro.


Jornalistas da boemia


Até meados do Século IXX havia poucas referências da boemia de Salvador nos jornais. O fato mudou a partir do Século XX, não só pelo interesse crescente em saber o que se passava nas alcovas da Cidade da Bahia, mas também por uma mudança no turno de trabalho dos próprios jornalistas. A presença destes cronistas privilegiados na noite ganhou um grande impulso com o fim dos vespertinos (como A Tarde era) e o domínio dos matutinos, cuja rotina diária de trabalho se encerrava à noite, às vezes a altas horas. Jornalismo e boemia então deram as mãos sem qualquer solenidade.


O período do jornalismo boêmio coincide, em grande parte, com o auge da própria vida noturna de Salvador. Na época o jornalista era uma espécie de artista da palavra. Tinha tratamento diferenciado entre prostitutas, burocratas e coronéis. Não fossem os cronistas da época, a noite baiana no tempo dos “castelos” teria perdido muito mais do seu brilho e suas histórias.


Parece impensável para um jornalista recém formado, mas a profissão oscilava entre o amadorismo, a informalidade e o idealismo. Eram profissionais de outras áreas, quase todos sem curso de nível superior, que noticiavam a vida da cidade em textos muitas vezes manuscritos, que eram datilografados ou compostos diretamente pelos linotipistas nas oficinas gráficas dos jornais.


Entre estes grandes cronistas das madrugadas de Salvador se destacam Jeová de Carvalho e Elmir “Gato Preto”, que escreveu durantes vários anos a “Crônica da noite Baiana”. É de Jeová o livro “A cidade que não dorme”, publicado em 1979 pela Câmara de Vereadores de Salvador. É um retrato preciso e divertido de época. Nele, a noite baiana aparece plena, com personagens reais, como Glauber Rocha, João Ubaldo e Camafeu de Oxóssi, entre muitos outros famosos e desconhecidos. Através dele, encontramos a verdadeira identidade de uma personagem emblemática de Jorge Amado. “Tereza Batista Cansada de Guerra, que vocês personagens ajudaram a criar , é o povo brasileiro”.


CURIOSIDADES


As confusões em Salvador muitas vezes aconteceram por causa dos marinheiros desembarcados na cidade. Um exemplo disso é o termo "parece que tem navio no porto", usado na época para designar bagunça.


A chegada de marinheiros era tão festejada no meretrício que alguns castelos fechavam as portas para os clientes que não fossem marujos durante a permanência dos navios no porto.


Com a proibição do desembarque de marinheiros de algumas embarcações, surgiram barqueiros especializados em levar mulheres da rampa do mercado aos navios atracados.


O foi com lençóis de casas de moças do Maciel que muitos dos estivadores desfilaram pela primeira vez em um novo bloco, o afoxé Filhos de Gandhi.


O Saionara foi o primeiro bordel a adotar a música ao vivo, nos anos 50 do Século XX. Outras casas noturnas, como o Tabaris e o Rumba Dancing, tinham música ao vivo, porém não eram casas de prostituição, apenas de dança e shows.


Além de dar início à mudança das famílias tradicionais do Centro Histórico para outras áreas, a epidemia de cólera morbus, que matou cerca de 30 mil pessoas na Bahia, resultou na proibição de enterros nas igrejas.


*Continuação e parte final da matéria publicada na semana passada. Primeira foto de Voltaire Fraga (final dos anos 40 ou início dos 50), demais fotos de Flávio Damm.


**Compilação e atualização de parte da reportagem especial “Herdeiras do brega”, publicada em outubro de 2002 no caderno Repórter do jornal Correio da Bahia. Leia a crônica "O tango ficou só", de Jeová de Carvalho do livro "A cidade que não dorme".