• Cidade da Bahia

Uma viagem à Montanha dos “castelos”



Parte 1*


Diogo Tavares e Sebastião Valença Filho**


O início da reforma dos arcos da Ladeira da Montanha, conforme ordem de serviço da Prefeitura de Salvador assinada no dia 12 de julho de 2019, pode resultar na revitalização de uma parte da cidade repleta de história. Com investimento de R$ 3,5 milhões, o projeto foi feito pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) em 2014 e seria executado pelo PAC Cidades Históricas, do governo federal, mas foi doado para a gestão municipal em 2015.


De acordo com a programação, a obra vai durar um ano e será executada em duas etapas, começando pela parte de baixo. O projeto prevê requalificação da infraestrutura interna e restauração das fachadas e da estrutura dos 17 arcos. Destes, dois são fechados, nunca foram ocupados e terão a estrutura recuperada, especialmente com sustentação e conserto de eventuais rachaduras e fissuras. Já os outros 15 arcos terão toda a parte elétrica, hidráulica e sanitária reformada.



É com esta notícia que o Cidade da Bahia inicia aqui uma viagem pela história daquela região, que já abrigou famílias nobres e a maior zona de prostituição de Salvador. As coordenadas foram recuperadas de uma reportagem de 2002, que contou com consultoria do historiador Cid Teixeira e parceria do jornalista Sebastião Valença Filho (in memoriam).

Subir a Ladeira da Montanha ou descer a Conceição pode se transformar num exercício complexo de imaginação. Descobrir nas ruinas em volta traços de imóveis que já foram residências das famílias tradicionais de Salvador é quase tão difícil quanto encontrar vestígios de um tempo em que ali funcionavam boates e casas de prostituição tão requintadas que chegaram a merecer a designação de “castelos".


De casas nobres a bregas


A transformação dos casarões familiares em bordéis teve inicio na mesma época da migração das famílias tradicionais de locais como o Maciel e Pelourinho para áreas do Campo Grande e Corredor da Vitória. Esta mudança significativa na ocupação da cidade ocorreu gradualmente, principalmente após a epidemia de cólera morbus, em 1855, quando as pessoas adotaram a premissa de que morar em sobrados geminados, edificados na testada da rua e sem área verde não apresentava boas condições de ventilação, luminosidade e asseio, representando, portanto, um risco maior para a saúde.


Isto coincidiu com outros fatores fundamentais, que incluem até mesmo a inauguração do Elevador Lacerda, em 1871. Com o elevador, o fluxo de pessoas nas ladeiras caiu, favorecendo a degradação do local. Além disso, havia a relativa proximidade da zona portuária. Este fato contribuiu não apenas para a ocupação das ladeiras por boates, como também pelo surgimento da chamada vida noturna em Salvador.


O transporte para o Recôncavo era feito predominantemente por embarcações à vela, sujeitas aos fatores climáticos. Como embarcações à vela não tinham horários certos para chegar, horários comuns, surgiram vários serviços noturnos. Isso inclui barracas de lanches e pousadas.


Gradualmente, com a contínua transformação da cidade e o abandono dos sobrados do Centro Histórico pela aristocracia, o meretrício e a vida noturna encontraram novas áreas. Essa convergência foi favorecida no início do Século XX por um período econômico de intenso movimento nos portos e, por extensão, de grande número de marinheiros estrangeiros em Salvador.


Ao mesmo tempo, o acesso a novidades do exterior fazia a cidade fervilhar. Surgem as famosas casas de shows e dança Tabaris e Rumba Dancing, que, junto com alguns "castelos", ampliam a oferta de empregos. Ao contrário do que muitos pensam, o Rumba Dancing não era casa de prostituição, mas de dança.


A boemia, então, se torna parte da cidade, movimentando a economia e gerando empregos, não apenas para garçons, cozinheiros e porteiros, mas também para artistas e músicos. Na época, muitos músicos da Orquestra Sinfônica da Bahia tocavam também, à noite, nos bordéis. Saíam da 5ª de Bethoven direto para os boleros e as rumbas. Eram músicos como Vivaldo Conceição, "Galo Cego", Assis, "Cacau" e "Tabaréu".

A prostituição aos poucos também cedeu espaço em áreas mais valorizadas pelos comerciantes. É o caso da chamada Rua de Baixo (hoje Carlos Gomes), substituída pelas ladeiras e pelo Maciel.


A cidade fervilhava. O movimento atraia companhias de shows e revista internacionais. Algumas agradavam tanto que permaneciam em cartaz durante muito tempo. Houve o caso de uma dançarina argentina, Eva Stachino, que ficou vários anos em cartaz, sempre atraindo um grande público. "No dia da minha formatura eu dancei de cueca e beca", conta o historiador Cid Teixeira, principal fonte para a elaboração da base desta matéria.


*Continua na próxima semana. Foto principal e quarta foto de Flavio Damm; terceira foto de Magno Carvalho, reprodução do livro “Comunidade do Maciel”.


**Compilação e atualização de parte da reportagem especial “Herdeiras do brega”, publicada em outubro de 2002 no caderno Repórter do jornal Correio da Bahia.

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