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Uma ponte longe demais


Diogo Tavares*


Diz a filosofia popular que quem quer separar constrói muros e quem quer unir faz pontes. Na política, no entanto, nem sempre é assim. Esta semana o governo estadual do PT lançou o edital para a construção da ponte Salvador – Itaparica, reaquecendo uma antiga promessa que nos últimos dez anos nunca passou disso, e foi alvo da crítica da administração da capital baiana, do Democratas, por iniciar o processo sem sequer ter apresentado o projeto e o estudo de impacto para aval do principal município envolvido.


Não se iludam. Esta ponte anunciada pode ser apoiada em tese quase por aclamação, mas, longe de unir, separa de forma bem clara interesses opostos com relação às eleições municipais do ano que vem, que na Bahia têm a capital como a cereja do bolo. De um lado se tentará mostrar que desta vez o equipamento, que segundo as primeiras notícias deveria estar pronto há pelo menos uns cinco anos, vai sair. De outro se insinuará que tudo não passa de um novo factoide e que, se fosse sério, o projeto e os impactos deles deveriam ser apresentados à prefeitura. Neste cenário, as possibilidades de um início efetivo de obras antes das eleições de 2020 são remotas.


Com preços cada vez mais caros e qualidade em queda livre, o sistema Ferry Boat, principal opção hoje para travessia entre Salvador e a Ilha de Itaparica, contribui para inflar o desejo dos baianos por uma ponte. Mas, após dez anos de anunciada, a notícia é recebida com muita desconfiança. Refém da própria promessa, o governo estadual já ciceroneou missões de chineses, abriu discussão pública, avaliou alternativas como um túnel, mas a ação prática foi a publicação do edital no último dia 18 de setembro prevendo a construção, gestão e manutenção através de uma Parceria Público Privada (PPP) de concessão patrocinada. Ou seja, dos R$ 5,34 bilhões previstos para a obra, o governo a Bahia entraria com um aporte de R$ 1,51 bilhão no quarto e quinto ano, comprometendo seriamente o orçamento do futuro governo. Já o vencedor da licitação exploraria o equipamento por 35 anos através da cobrança de pedágio, algo em torno hoje de R$44 por veículo de passeio, ou próximo ao valor cobrado pelo Ferry.


O anúncio gerou uma reação quase imediata do prefeito ACM Neto. Segundo ele, este projeto nunca foi tratado com seriedade pelo governador Rui Costa e não avançará sem o aval da prefeitura. Neto critica a publicação do edital para um projeto que sequer foi apresentado à administração de Salvador, cobra a apresentação de estudos sobre o impacto da obra na cidade e condena a modelagem financeira, que coloca o custo “para ser pago no futuro”.


Lançado em 2009 por Jacques Wagner, correligionário, antecessor e mentor de Rui, o projeto atravessou uma década sem ser viabilizado e nas últimas eleições ganhou espaço nas campanhas. O tema volta agora ao debate um ano antes do pleito municipal, que terá justamente Rui e Neto como principais cabos eleitorais. O governador com trunfos de obras bem avaliadas na capital baiana, como o Metrô, e o prefeito, que chega ao final do segundo mandato como um dos mais bem avaliados gestores do país, somando importantes ações, como intervenções na orla, implantação do BRT e modernização da frota de ônibus. O resultado, qualquer que seja, não apenas resultará na escolha do próximo prefeito, mas terá impacto no próprio futuro político dos dois.


Se em relação a outras obras relacionadas à mobilidade urbana a “disputa” entre estado e município tem resultado em boas coisas para a cidade, no caso da ponte o assunto tende a aquecer o debate político sem avançar de forma prática. Afinal, o calendário eleitoral, a crise econômica, as incertezas de cenário, o risco de descontinuidade, a falta de consenso e o aumento no preço do petróleo são apenas alguns dos fatores que atentam contra o projeto. A única certeza mesmo é que muita água ainda vai rolar sob uma ponte que por enquanto não liga nada a lugar nenhum.


*Diogo Tavares é jornalista, escritor, editor do Cidade da Bahia e diretor da Escriba Comunicação & Consultoria

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