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Templo da democracia


Diogo Tavares*


Um amigo, médico urologista, me disse que tinha aderido à promoção do Black Friday. Bastava o cliente pedir o desconto, que ele cortava 50%. Para não perder o mote, sugeri que ele fizesse também uma promoção de Páscoa no Natal: dois ovos pelo preço de um. Um papo singelo deste nível obviamente não poderia ter acontecido na sala de espera de um consultório. Foi num boteco mesmo.


Como dizia Gonzaguinha, o botequim é a instituição mais democrática do país. Abrangente até no nome. Recorrendo aos neurônios que restam, consegui lembrar vinte e poucos sinônimos. Os franceses, por exemplo, gostam de chamá-lo de café ou bistrô, os italianos preferem cantina, enquanto os ibéricos partem para uma taverna. Para os adeptos de um bom vinho, passa a ser adega. Já os cubanos, tão parecidos com os baianos na origem, nos brindam com a deliciosa bodeguita. Talvez via Cuba, talvez por caminhos próprios, os sergipanos adoram chamá-lo de bodega. Em alguns lugares também pode ser barraca, a depender do grau de improvisação.


Não dando descanso aos dois neurônios, lembro daqueles entrepostos comerciais do interior, que são um misto de bar e armazém. Se não me engano, a depender do lugar, chamam de empório, rancho, mercado ou mercearia. No popular, as pessoas partem ainda para muquifo ou cafua. Mais criativos são "abaixadinho", "buraco quente" e "pé duro". E tem os geniais, como "rala cotovelo", "toca da onça" e "escritório de corno".


Diante da relação, cheguei à conclusão de que, tirando o socioeconômico, não existe diferença entre o pub londrino e a birosca da periferia. Em um ou em outro discute-se futebol, política e sexo, quase sem restrições, embora a prudência às vezes aconselhe o silêncio. A depender do nível da discussão e do teor alcoólico, a democracia pode acabar em porrada ou coisa pior. Mas são riscos inerentes a qualquer democracia.


Com toda esta liberdade, entretanto, se enganam os que pensam que as paredes dos botequins não têm ouvidos. Elas têm. Também os balcões sebosos, os copos encardidos, as moscas mergulhadas em piscinas de cerveja e a coxinha de galinha da semana passada. Têm ouvidos e escutam muito bem. Na mesma proporção em que alguns goles soltam a língua e ampliam a voz dos inconfidentes.


Lembro o caso de um amigo de faculdade, Alvinho Costa e Silva, que havia combinado ir a um bar com a namorada e um casal amigo dela. Quando o garçom chegou à mesa, ele pediu uma cerveja. Os outros pediram coca-colas. Ele, então, se levantou solenemente e disse: "Eu não bebo com vocês. Vocês não são pessoas confiáveis". E saiu do bar, deixando os três à mesa.


Alvinho, como outros colegas de universidade, era um frequentador assíduo de botequins. Tínhamos até um que era quase parte do campus, onde alguns professores compareciam e aproveitavam para dar aulas informais de extensão. A conta era diariamente decidida na "porrinha" (palitinho).


Mas, voltando ao meu amigo urologista. Até onde eu sei - ou até o fechamento desta edição - não consta que algum paciente tenha topado a promoção. Lá pelas tantas, quando achei que era hora de ir para casa, aproveitei para dar um conselho para ele: que evitasse beber muito em véspera de dia de trabalho. E expliquei: "Se você estiver com a mão tremendo no dia seguinte, o paciente pode achar que é ousadia".


E ele, antes de cair na gargalhada: "E você acha que eu estou cheio de pacientes por quê?"

O botequim é assim, informal, imprescindível.


*Texto contextualizado publicado inicialmente em 2001 no jornal Correio da Bahia.

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