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Sonoro silêncio


Por José Barreto*


“Não tenho nada a dizer. Não sei falar. Só sei tocar violão”.


Dito isso, tomou o violão e tocou pra mim por uns eternos minutos. Olhando para o nada, como se flutuasse, sentado numa nuvem branca. Depois, virou-se e me falou baixinho, com firmeza e ternura, apontando a porta: “Agora vá, estou cansado, quero descansar”. E me fui, zonzo, como se tivesse fumado um baseado, em estado de graça.


João (sim, ele mesmo, o Gilberto) viera a Salvador anônimo, para resolver um prosaico probleminha pessoal. Perdera os documentos e precisava tirar uma segunda via da carteira de identidade, no Instituto Pedro Melo. Tinha ainda os dedos sujos de tinta quando resolveu me dar atenção. Estava no seu encalço desde o dia anterior, repórter da sucursal de um jornal do Sul. Pauta: saber o motivo da vinda do músico famoso à Bahia, terra natal, acompanhar seus passos e, quem dera, com um pouco de sorte e habilidade conseguir uma entrevista, a tal exclusiva.


A abordagem se deu na entrada do hotel onde ele estava hospedado, no Corredor da Vitória, uma tarde de sol. Sabia das idiossincrasias do gênio, aproximei-me cuidadoso:


“João !?”


“O que você quer?”


Certamente já tinha percebido meu cerco. Expliquei brevemente minha missão, ele ouviu com ar distraído, o elevador chegou, subimos juntos, em silêncio abriu a porta do quarto, entramos e ele, sem nada dizer, atirou-se de bruços na cama, onde estava seu violão amigo.


Ali estava estendido diante de meus olhos perplexos o gênio João Gilberto, um dos maiores artistas do planeta, meu ídolo, com sapatos de cadarços e meias, calça e paletó escuros, surrados, camisa branca, cabelos desgrenhados ... e o silêncio.


E agora ? Eu ali de pé, caneta e bloco de anotações na mão, sem coragem de dar um pio. Queria mesmo era ter a coragem de dizer o quanto gostava dele, dos vinis que guardava com carinho e ouvia sempre, desde os anos 60, confessar toda a minha admiração e respeito, do tanto que sabia dele... Mas permaneci imóvel, entalado, espiando aquele homem que era um mito, então um como simples mortal, tão frágil. Parecia-me assim, naquela situação, um ser carente de afeto e proteção, só.


E o silêncio que se espichava ...


Passado um tempo, não sei quanto, ele ergueu-se, sentou na beirada da cama, pegou o violão, passou os olhos em mim e disse com um ar de impaciência e um tom de ternura aquilo, que nada tinha pra me falar. Daí, tomou o violão e começou a tocar, não sei por quantos minutos, sem parar, sem voz.


Estava tudo dito e feito. Era João Gilberto.


*PS: João era um homem simples, tímido, sedutor e terno. Desconcertante, às vezes. Parecia não ser desse mundo. O acontecido se deu na década de 80, século passado. Mas que importância tem a data, o tempo perante João? Assim me lembro. Foi ontem.

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