• Cidade da Bahia

Salvador, o coração no meio do corpo



Eduardo Bueno*


A cidade do Salvador foi fundada em março de 1549 para ser “como coração no meio do corpo”. Criada como primeira capital do Brasil, era cidade planejada e as “traças e amostras” – ou seja, o plano diretor e as plantas baixas – foram trazidas de Portugal, bem como o arquiteto responsável pelas obras, Luís Dias. A capital deveria emular Lisboa, com uma Cidade Alta (onde ficariam as sedes do poder: o palácio do governo, a igreja da Sé e a Câmara e a cadeia), sobrepondo-se à Cidade Baixa (lugar do porto e da alfândega, onde labutaria o povo). A cidade foi construída por seis empreiteiros, mas as licitações foram fraudadas e as obras, superfaturadas, atrasaram-se em vários anos. Inaugurada às pressas, a muralha ruiu dois meses depois de pronta.


Apesar do início inglório, Salvador logo virou uma cidade magnética, um polo entre dois mundos, a inequívoca capital do Atlântico negro, capaz de transformar oceano em rio – um rio de lágrimas, por certo, mas também uma torrente de vida e sangue, pois, qual vaso comunicante entre dois continentes, seria responsável pela transfusão de culturas da Costa da Mina para as costas do Brasil. E ainda mais do que uma cidade luso-africana, com sotaque brasileiro, tornou-se cidade majoritariamente negra. Era a urbe que “falavazava desvairadas línguas”, em meio à qual a realeza africana no exílio e a “canalha” d´além-mar misturavam-se, quase indistintas, no formigueiro humano que coalhava a Cidade Baixa, o mais das vezes submissa e subserviente à Cidade Alta, mas ainda assim subversiva e insurgente, como na Revolta dos Malês (em 1835) e na Sabinada (1838).


Reconhecida pelo odor do azeite-de-dendê misturado ao onipresente cheiro do mijo, era a “triste Bahia, tão dessemelhante, de tantos negócios e tantos negociantes”, tal como cantou o Boca do Inferno, o imortal Gregório de Matos, já nos idos do século 17. Era também a cidade “erguida em nome do Salvador, mas onde o diabo arregimenta as almas”. A cidade de Caetano e Caymmi e Castro Alves. A cidade de Jorge Amado, Caribé e Verger. De Gil, João Ubaldo e João Gilberto. A cidade de Cipriano Barata, do doutor Sabino e de Marighella.


Mas acima de tudo, é a cidade de todos os santos, de todos os deuses, dos terreiros e dos tambores, dos orixás, do axé, do acarajé, do Olodum, dos Filhos da Gandhi, do Ilê Ayê, da Igreja do Bonfim, de Mãe Senhora, de Mãe Menininha. A cidade de todos batuques, todas as macumbas, todos os feitiços, todos os sortilégios. Quando você estiver lendo essas mal traçadas, estarei na Bahia. Rezando pelo impossível - que nem sempre rola….


*Texto do jornalista e escritor Eduardo Bueno, publicado originalmente em sua coluna semanal no jornal Zero Hora, de Porto Alegre, RS

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