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Ruas contam a história de Salvador


Você sabia que o bairro da Mouraria, em Salvador, já se chamou Monsenhor Teodolino? E que Sete Portas foi 1º de Maio? Na verdade estes locais chegaram a mudar de nome na década de 60, durante pouco tempo, mas as reações contrárias fizeram o poder público recuar e criar uma comissão para restabelecer os nomes originais, ou seja, aqueles que conhecemos hoje.


A cidade de Salvador, que completou 460 anos de fundação no dia 29 de março de 2019, expõe nas ruas, ladeiras, praças e largos uma parte da sua história que pode passar desapercebida para muitos moradores e visitantes. Primeira capital das terras portuguesas de ultramar, teve destaque durante o período colonial, abrigou primazias, revoltas, invasões e devassas que deixaram marcas, se não nas antigas construções, nos nomes que sobreviveram através dos séculos.


É muito comum os turistas perguntarem sobre a origem de nomes como Pelourinho, Abaeté, Itapuã, Água de Meninos, Tira Chapéu, Sete Portas, Mouraria ou Ladeira da Preguiça. Nem sempre, entretanto, os visitantes conseguem uma resposta que satisfaça a sua curiosidade. Afinal, geralmente as placas só dizem o nome, apesar de todo nome ter uma razão de ser. Este é o passeio que você este convidado a fazer a partir de agora.


Como começar, senão pela palavra “logradouro”? No Aurélio está: "Logradouro ou logradoiro, s.m., praça, rua, passeio, ou jardim público”. Ou seja, praticamente tudo que não é particular e fica por aí, onde se cruza no caminho e se esquece que passou, ou onde se fica e não atenta que está. Frases feiras assim parecem convencionais como poucas coisas, mas é justamente do que se esperaria o convencional que surge o exótico. Complicado? Vamos assim: nem sempre se nota os nomes no mínimo surpreendentemente originais de muitos logradouros de Salvador.


Vamos iniciar este passeio pelo Pelourinho, ou carinhosamente Pelô. Dos nomes que existem pelas ruas da Cidade da Bahia, talvez seja o único com o significado ligeiramente conhecido. Apesar disso, a explicação para o nome, que vem de um instrumento de tortura onde os escravos eram amarrados, já teve outras versões no mínimo mais criativas. Uma delas foi dada por um cidadão a um turista da seguinte forma: “Antigamente, tinha um cara aqui que vendia papagaios e as pessoas chegavam perto falando ‘dá o pé lourinho’. Daí ficou Pelourinho”.


Estamos agora nas Sete Portas. Foi preciso um número incalculável de encontros marcados em frente a uma casa que possuía suas sete portas pintadas com cores fortes para o nome ficar definitivamente guardado. Enfim, a origem neste caso não é um segredo guardado debaixo de sete chaves.


Herança indígena


A maioria dos nomes diferentes vem do próprio uso popular, mas muitos, de Itapuã a Paripe, têm origem tupi-guarani, sendo anteriores até à chegada dos europeus por estas terras. Neste caso, uma coisa é certa: onde tiver "ita" é pedra. Itapuã, por exemplo, que alguém resolveu escrever erradamente Itapoan, é “pedra levantada do mar”. Itacaranha é a pedra da “caranha”, um dos peixes mais apreciados pelos mais antigos soteropolitanos. Do outro lado da baía, tem a Ilha de Itaparica, ou “cerca de pedras”, enquanto Itapagipe é “rio que corre da pedra”.


Continuando esta viagem, podemos dar um pulo na vizinha Camaçari, nome que esconde uma poética difícil de imaginar: “a lágrima sentida”. Os índios sabiam das coisas muito tempo antes da construção do Polo Petroquímico. Já “o homem verdadeiro” é, no mínimo, um significado surpreendente e estimulante para a nossa imaginação, principalmente por se referir a uma das mais surpreendentes paisagens de Salvador, a Lagoa de Abaeté. No caminho, vamos dar uma passada ainda pela Pituba, ou “bafo forte”, por Piatã, ou “a fortaleza”, e, com origem muito mais recente, pela prosaica Placafor, que vem de Placa da Ford, propaganda que existia no local quando a cidade ainda estava crescendo para aqueles lados.


Sem querer fazer ninguém subir a Ladeira da Preguiça a pé logo de saída, vamos visitar Piripiri, ou “cerca feita de junco”, conhecer o Acupe, ou “no calor”, ver de longe Matatu, ou “mato escuro” e chegar até Paripe, ou “viveiro de peixes”.


Pra tirar a preguiça


Quase sem folego, chegamos enfim à Ladeira da Preguiça. Na época da escravidão, esta ladeira era usada para castigar os escravos desobedientes, fazendo com que eles subissem diversas vezes carregando pesos. Não é, portanto, difícil imaginar o porque de passarem a chamar a ladeira de “Tira Preguiça”, com o tempo e redução do nome virando simplesmente Ladeira da Preguiça.


Mas digamos, por exemplo, que se more ou se hospede nos Barris. O simples fato de gostar de chope pode ser suficiente explicação para algumas pessoas. O que pouca gente sabe é que, onde hoje fica a Biblioteca Central, havia uma fonte. Era muito procurada pelos aguadeiros. O intenso movimento e a presença de animais de tração, entretanto, fazia com que frequentemente caísse terra das margens e outros detritos, sujando a água. Como proteção, foram colocados tonéis, ou barris de madeira. A fonte não existe mais, muito menos os barris, mas o nome ficou.


Já que o assunto é água, vamos para a curiosa Água de Meninos. No local havia um cais natural formado pelas pedras. Como o mar ali era calmo, foi escolhido pelos jesuítas para levar os alunos ao banho de mar. Daí para Agua de Meninos foi um pulo. Aliás, entre as primazias de Salvador podemos citar ter abrigado o primeiro colégio da Companhia de Jesus das Américas.


É, entretanto, no Centro de Salvador que se concentram os nomes com mais significado histórico de Salvador. A Rua do Tira Chapéu tem esse nome desde a época do Brasil colonial. Portugal já não andava muito querido e, para forçar a sua reverência, a rua que saía em frente Palácio do Governo, então sede do governo português, mereceu um decreto especial. Quem passasse por lá estava obrigado a, em reverência à Coroa, tirar o chapéu. Um sujeito distraído naquela época podia ser multado e até ir pra cadeia. Uma rua galante na marra que, apesar do tempo, ficou mesmo Rua do Tira Chapéu, embora tanto a carapuça quanto a colonização portuguesa tenham caído de moda.


Cabeças cortadas


Próximo à Praça da Piedade, onde sem piedade foram executados os quatro condenados da Revolta dos Alfaiates, duas ruas mantêm vivos até hoje os caminhos percorridos pelos condenados. Era pela Rua da Forca que eles eram levados ao patíbulo e na Rua do Cabeça essa parte do corpo deles ficava exposta para intimidar qualquer candidato a insurgente.


O Campo da Pólvora também foi lugar de execuções, mas não tem este nome por terem usado o pelotão de fuzilamento ao invés da tradicional forca. Antes conhecido como Campo dos Mártires, ganhou o atual nome porque no local foi instalada a primeira fábrica de pólvora de Salvador, há séculos desativada.


Para finalizar este passeio, que já está se estendendo muito, vamos dar um pulo na Mouraria, nome que remete, assim como muitos outros, à portuguesa Lisboa. Como naquela época Portugal mandava tudo que não queria pra cá, assim como levava o que queria, cerca de 300 presos envolvidos na revolta dos mouros, em 1718, foram deportados para Salvador. O então governador geral da colônia, marquês de Vila Verde, delimitou uma área entre a Lapa e a Palma para instalação dos deportados, que com o tempo fizeram negócios que iam da compra de joias à leitura da sorte.


A batalha dos logradouros


Apesar da importância histórica dos nomes de logradouros de Salvador, na década de 60 houve uma ampla onda de reforma antonomásia por parte do poder público, ou seja, Prefeitura e Câmara de Vereadores. Na época, chegou-se a trocar Sete Portas por 1º de Maio, Campo da Pólvora por Dom Pedro II, Tira Chapéu por Juliano Moreira e Mouraria por Monsenhor Teodolino. As mudanças provocaram muitos protestos. Principalmente porque as novas alcunhas não se ligavam de maneira tão particular e original à história de Salvador. Diante da reação, criou-se uma comissão com seis integrantes para promover a restauração dos nomes originais.


Um dos participantes desta comissão foi Salvador de Ávila, professor, historiador e ex-diretor do Arquivo Público Municipal. Além de ter nos guiado aqui neste passeio pelas ruas da capital baiana, ele fez da sua paixão pelos costumes e crenças dos baianos, por personagens ilustres ou anônimos desta terra, por solares e igrejas que sobreviveram ou pereceram ao tempo, pela “Bahia de mil encantos”, sua grande viagem de vida. Isto é o que vale. Porque os passos dos homens duram menos do que os caminhos, mas são os passos e os homens que fazem os caminhos.


O QUE SIGNIFICA


Abaeté – o homem verdadeiro (tupi)

Acupe – no calor (tupi)

Água de Meninos – local de banho dos meninos do colégio jesuíta (popular)

Amaralina – antiga fazenda de João Alves do Amaral (popular)

Baixa dos Sapateiros – local da cidade onde se instalaram os primeiros artesão em couro (popular)

Barris – foram usados barris para proteger uma extinta fonte no local (popular)

Camaçari – a lágrima sentida (tupi)

Campo da Pólvora – abrigou a primeira fábrica de pólvora da cidade (popular)

Itacaranha – pedra perto de onde dá “caranha”, um tipo de peixe (tupi)

Itapajipe – rio que corre da pedra (tupi)

Itaparica – cerda de pedras (tupi)

Itapuã – pedra levantada do mar (tupi)

Ladeira da Preguiça – escravos preguiçosos eram obrigados a subir a ladeira com pesos (popular)

Largo do Tanque – antigamente havia um dique no local (popular)

Madragoa – viveiro de caranguejos (tupi)

Matatu – mato escuro (tupi)

Mouraria – destino de cerca de 300 prisioneiros mouros deportados de Portugal (histórico)

Paripe – viveiro de peixes (tupi)

Pelourinho – antigo instrumento de tortura existente no largo (popular)

Piatã – a fortaleza (tupi)

Piripiri – cerca de junco (tupi)

Pituba – bafo forte (tupi)

Placafor – havia no lugar uma placa de propaganda da Ford (popular)

Pojuca – pântano (tupi)

Rua da Forca – por onde entravam os condenados à pena de morte por enforcamento (popular)

Rua do Cabeça – onde ficavam expostas as cabeças dos sentenciados (popular)

Sete Portas – descrição de casa existente no local (popular)

Tira Chapéu – rua onde tirar o chapéu em reverência à Corte era obrigado por lei (histórico)


*Versão atualizada do texto de Diogo Tavares publicado originalmente em 1987, no jornal A Tarde