• Cidade da Bahia

Reino encantado da Bahia perde Dom Juvená



Por Emmanuel Publio Dias*


Escrevo ao correr da pena, não da pena de escrever, de tristeza de acordar hoje sabendo que Juvenal não está mais no reino encantado da Bahia, onde era um dos mais destacados e poderosos entes. Juvenal, Juvená, Animá, o Rei das Festas de Largo, o Príncipe sem Sorte casado com a Rainha Moma (Força, Doia), Juvenal Silva Souza.


Juvenal lutou e ganhou todas, contra a morte, em inúmeros eventos que derrubariam qualquer mortal. E também, contra as forças da burocracia, da tirania, da mesmice e principalmente da tristeza. Nos inúmeros espaços de convivência que criou, da barraca no estacionamento da Praça Castro Alves ao Espaço Etílico-Cultural de Itapuã, Juvená foi sempre um agitador anárquico, certamente lições de Bakunin, Fanelli e Malatesta que ouviu quando morou na Itália.


A estas lições acrescentou o que aprendeu com a Psicologia (formado na primeira turma da UFBA), acrescido de pitadas do catolicismo da rápida passagem por um seminário.

Sim, Juvenal pensou um dia que seria padre. O que não deixou de acontecer: ao longo de décadas arrebanhou seguidores para sua messe, celebrando em suas barracas e bares, o suprassumo da baianidade, criando o seu próprio anarquismo, sua própria seita de seguidores.


Ele não foi apenas o maior barraqueiro de Salvador, foi um profeta do que hoje se conhece como o "viver Bahia". Quando montou sua primeira barraca, na festa da Pituba, em 1971 (vendendo Carlsbergue, que os baianos pediam casiberguesinha), Juvenal criou a ponte entre a classe média universitária e a cultura popular, que antes só se juntavam nas páginas de Jorge Amado. Daí viria tudo: o Carnaval, os blocos, o som, do Axé à Timbalada (quem se lembra que Fia Luna, o primeiro de Carlinhos Brown, tocava na barraca todas as noites?). E principalmente, a presença desta mesma classe média em todos os eventos do calendário de festas, o sucesso da Barraca de Juvenal transbordava para todas as outras.


Com o fim das atividades da cervejaria dinamarquesa no país, a barraca de Juvenal ganha o apoio da Antártica, de novo, a primeira vez que a marca de cerveja patrocinaria uma barraca (e também, o épico casamento de Juvenal e Doia, já em Itapuã). Não foi à-toa: a barraca de Juvenal vendia 400 engradados de cerveja por dia!


A evolução do Carnaval que Juvenal ajudou a construir, removeu também sua barraca do estacionamento da Praça. Ele passou um tempo montando no Campo Grande, à sombra de um gigantesco jacarandá, como gostava de informar a localização. E mais tarde, nem aí.


Juvenal levou seus paramentos, músicos, mesas e cadeiras de madeira e suas oferendas etílicas para a praia de Itapuã no imenso quintal de sua casa, na Rua Pasárgada, onde quem é amigo do Rei não passa vicissitudes, nem sofre o calor, afinal todo o ambiente é refrescado pelo exclusivo ar condicionado Céutral. No caminho do bar, placas alertam: "Cuidado! Bêbados na pista".


Ao mesmo tempo, no final da rua K. Ali, em meio às esculturas e quadros de seus amigos artistas, mais uma vez, Juvenal construiu um espaço de convivência único, desta vez emoldurado pelo Criador e o cenário de itapuã. Era o espaço ideal, onde podia receber seus clientes, amigos, turistas, tomar sua sagrada cerveja e contar suas histórias de liberdade sem fim e sem pressa de voltar prá casa, ali bem pertinho, a que velho buggy vermelho rapidamente lhe levava.


A destruição de todas as barracas de praia pela Prefeitura de Salvador em 2010 (e diga-se, até hoje sem outra solução), resultou no primeiro baque na saúde de Juvenal. O que não lhe impediu de transformar o bar de sua casa em Espaço Eco-Etílico-Cultural, onde continuou a promover música e cultura baiana, agora sob o comando de Doia e seus filhos Ricardo e Babi.


A Barraca de Juvenal foi para mim o portal de um novo mundo. Mágico, sensorial, afetivo e principalmente, baiano. Eu, de férias na casa de um tio na Pituba, passeava no que, para mim, seria uma quermesse fora de época em frente à igreja, quando fui atraído, melhor, abduzido por um som. Era o Olodumaré tocando seus atabaques gigantes. Flecha, Joao Alves Guedes, Gorga Souza, Bonfim, Pastore, meus mestres e mentores. Exatamente na Barraca de Juvenal. Entrei e nunca mais saí.


*Emmanuel Publio é publicitário, professor e conhecedor das coisas da Cidade da Bahia

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