• Cidade da Bahia

Reforma do Mercado Modelo: novo capítulo de uma longa história


Pouco mais de 50 anos após o incêndio que destruiu o antigo Mercado Modelo, em primeiro de agosto de 1969, o prefeito ACM Neto anunciou nesta sexta-feira, 20 de setembro de 2019, que o equipamento passará por obras de requalificação. Segundo o gestor, a iniciativa já possui um projeto conceitual, mas ainda precisará da elaboração do projeto executivo, da definição do orçamento e do lançamento da licitação.


Em 1969, quando a cidade era governada pelo avô do atual prefeito, o falecido Antonio Carlos Magalhães (ACM), o incêndio motivou uma série de suspeitas de ter sido criminoso. Era a terceira e seria a última vez que chamas atingiriam a antiga edificação, construída em 1912 no governo de J.J. Seabra. Após a instalação temporária num galpão da Prefeitura em Água de Meninos, os barraqueiros ocupariam o atual prédio, até então o edifício da Alfândega.


Era 5h15 de sexta-feira, 1º de agosto de 1969, quando a fumaça foi notada saindo do prédio. Como faltava 45 minutos para a abertura do mercado, às 6h, o vigia não permitiu o acesso de barraqueiros e voluntários. Pouco tempo depois a polícia chegou e promoveu o isolamento da área até a chegada dos bombeiros. Desesperados, alguns comerciantes tentaram entrar para salvar mercadorias, já que em 90% dos casos não havia seguro, utilizando o acesso pelo lado do mar. Acabaram presos.


A demora dos bombeiros, que depois enfrentariam também a falta de água suficiente para combater as chamas, permitiu que o fogo logo tomasse conta do prédio. A alternativa de utilizar os extintores do local também não foi possível, já que haviam sido retirados inexplicavelmente alguns meses antes. Impotentes diante da tragédia que transcorria na frente deles, levando uma grossa nuvem de fumaça para o céu, barraqueiros, capoeiristas e mães de santo choravam.


Além da escassez de água, que teve que ser bombeada do mar, os 105 bombeiros da corporação sofriam com a falta de equipamentos modernos. Mesmo com a ajuda de 250 aprendizes de marinheiros lotados no Distrito Naval, o combate ao fogo não avançava. Neste cenário, o Mercado Modelo queimou durante todo o dia, consumindo as 300 barracas existentes, todas as mercadorias e estruturas de madeiras. Um momento particularmente lamentado foi quando a torre do relógio ruiu diante dos presentes.


Após consumir quase todo o material inflamável, o incêndio ainda apresentava focos no início da noite. Tão vorazes quanto as chamas, as desconfianças de incêndio criminoso se multiplicavam. Uns lembravam da intenção da Prefeitura de demolir o mercado para promover uma mudança viária, outro que havia resistências a um projeto de mudança dos comerciantes para uma área no Pelourinho. Diante do fato a própria gestão municipal solicitaria a abertura de inquérito pela Secretaria de Segurança Pública e pela Polícia Federal. Como uma das primeiras providências, foi solicitado que o Jornal da Bahia identificasse a pessoa que havia mandado publicar, em cinco edições, notas defendendo a reforma do Pelourinho nos seguintes termos: “O plano do Pelourinho sairá na frente se o Mercado Modelo for transferido para lá”.


Todos os olhos se voltavam para a Prefeitura. Por volta das 17h, um grupo com 200 pessoas, entre barraqueiros e familiares, se dirigiu para o gabinete de ACM. Queriam a autorização para se instalar provisoriamente em outra área e levavam três sugestões: em frente à Igreja da Conceição da Praia, perto de um novo terminal rodoviário ou num depósito do Comando Militar. As três foram rejeitadas pelo prefeito, que alegou nos dois primeiros casos problemas para o tráfego de veículos e no terceiro a falta de espaço suficiente para abrigar todos os comerciantes. Venceu a sugestão inicial da Prefeitura, de utilizar um galpão em Água de Meninos.


As medidas seriam relatadas por ACM durante entrevista coletiva, na qual ele foi perguntado sobre o que a Prefeitura poderia fazer para evitar incêndios como o do Mercado Modelo e o que tinha atingido quatro anos antes a Feira de São Joaquim. “Rezar”, respondeu ACM, ameaçando depois expulsar um repórter do Jornal do Brasil após ser questionado sobre a falta de equipamentos dos Bombeiros, então sob responsabilidade municipal. Questionado sobre o projeto de demolição do mercado, o prefeito diria já ter mudado de ideia, após a rainha da Inglaterra, Elisabeth II, em visita a Salvador, ter comparado o equipamento aos bazares orientais. Conforme disse na época, após a fala da rainha, a gestão municipal “passou a dar maior atenção a este ponto de atração turística”.


A investigação do incidente não avançaria muito. Já a fachada restante do antigo mercado seria demolida para a tal reforma viária. Era o fim do prédio que já havia resistido a um grande incêndio, que atingiu todas as barracas em 7 de fevereiro de 1923, e um incêndio parcial, em 23 de fevereiro de 1943.


A mudança para a Casa da Alfândega, praticamente ao lado do antigo prédio, em 1971, implicaria também na alteração do conceito no próprio mix de comércio. Até 1969, o Mercado Modelo era responsável por fornecer mais de 65% dos gêneros de consumo diário dos baianos, passando a partir da reinauguração a comercializar especiarias e gêneros voltados ao turismo. Já a rotina de incêndio continuaria no novo endereço, tomado por chamas em 10 de janeiro de 1984. A nova reforma é o mais recente capítulo de uma história repleta de dramas deste importante símbolo de Salvador. Que os incêndios fiquem no passado, como já parece ter ficado a necessidade das reformas serem precedidas por eles.


*Flagrante do incêndio de 1969 no Mercado Modelo (foto 1), reprodução de matéria da revista Manchete (foto 2), antigo prédio da Alfândega antes do aterro (foto 3)

Receba nossas atualizações

  • Cidade da Bahia
  • Ícone do Facebook Branco

© 2019 por Escriba Comunicação & Consultoria. Criado com Wix.com