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Rainha de cinco nomes

Ou como um encontro repleto de explicações diante do mar da Bahia pode conter muito mais mistérios do que certezas

Diogo Tavares*


Salvador, 2 de fevereiro de algum ano


É dia de festa no mar e ele lembra disso assim que acorda. Não sabe porque, mas tem vontade de fazer como um conhecido faz todos os anos e faltar ao trabalho. Por isso resolve ir. Porque, de repente, é como se não houvesse amanhã. Apenas o agora. Logo segue sozinho na rua entupida de gente. O batuque do bloco que passa é quase tão alto quanto som na barraca. Mais adiante, em outro bar armado em madeira e lona, é o reggae de Bob Marley que invade os tímpanos.


Caminha ao sabor das ondas de gente. Um grupo mais animado passa empurrando todo mundo e abrindo caminho. Quase cai, como passarinha, na panela de azeite fervendo da baiana do acarajé. Sente o cheiro do dendê e chega a se preparar para o pior, mas escapa, como por milagre, na última hora. Como todo mundo escapa, reflete, com ajuda de um braço negro e forte que surge não se vê de onde e no meio dos corpos suados desaparece.

Para diante de um isopor e pede uma cerveja. O dia ferve sob o sol, como o óleo que frita batatas num carrinho ao lado. Olha distraidamente para as pessoas em festa quando ela surge. Camiseta branca molhada, colada ao corpo, revelando os seios, cabelos negros lisos, compridos, realçando o rosto moreno. É como uma visão. As pessoas abrem caminho à passagem dela, o samba silencia ou parece diminuir de volume, os homens, mesmo eles tão à vontade para fazer gracejos às mulheres que passam, emudecem. Vem na direção dele e para. Pausa o coração, por um momento. Para o mundo.


Ele não a conhece, mas ela fala como se fosse íntima. Pede um gole de cerveja. Ele dá. Dá também um beijo, como se ela também tivesse pedido, completamente fascinado. Apesar das roupas molhadas, ela traz na mão um envelope de carta azul completamente seco. Estaria borrado se as mãos estivessem molhadas. A princípio isso não chama atenção dele, pois só consegue fitar os olhos claros em contraste com a pele escura, olhos movediços. Pergunta como ela se chama. A moça responde: "Janaína. Também é um dos cinco nomes de Iemanjá".


Quer saber mais e ela explica que "Dona Janaína" é como os pescadores da rampa do Mercado Modelo preferem chamar a Rainha do Mar. Qualquer homem do mar da Bahia pode dizer. Janaína é nome gostoso de dizer de boca cheia, como afagar peitos e bundas na beira do cais. Mas o "dona" mostra respeito, pois Janaína é maior que qualquer barco, que qualquer mar. O pai escolheu o nome. A mãe não quis, preferia Juliana, mas aceitou. O pai, diz, era mestre arrais da Companhia das Docas. Antes tinha sido pescador.


Então diz "vamos" e puxa ele pela mão e ele se deixa arrastar no meio da massa de gente a dançar. Eleu, que não sabe dançar, segue dançando e rindo feito bobo no meio do povo. Dançando e rindo atravessam a corrente de gente até a fila, no barracão de pescadores, ao lado da Igreja de Santana. Entram no final da fila e ele observa as oferendas que todos levam para Iemanjá. Ela explica. São pentes, escovas e presilhas pra ela arrumar o cabelo longo. Também perfumes e sabonetes, porque ela gosta de estar sempre cheirosa, como as morenas da Bahia. Brincos e anéis, pois nunca tem enfeite demais pra ela, que é vaidosa. E flores, muitas flores, que beleza e perfume são coisas que ela nunca dispensa. Fala como se conhecesse intimamente a mística personagem.


Após algum tempo, ele pergunta o que ela vai dar pra Iemanjá. Janaína mostra o pequeno envelope e diz que é uma carta pra alguém que a Princesa de Aiocá levou. É outro nome de Iemanjá, completa. Ele começa a rir, mas ela oculta aqueles dentes com os lábios. Fica olhando, fascinado, até ela colocar o envelope entre as flores no balaio. Não tem coragem de perguntar quem a Princesa de Aiocá levou, pois sinte que a saudade pode afastá-la. E naquele momento não se importa quem tenha sido, pois a mulher que o fascina está diante dele.


Como se ouvisse aqueles pensamentos, Janaína diz que Aiocá é um lugar perfeito, como Xangri-lá ou Passárgada, um reino para onde os homens do mar corajosos, dos que não temem as piores tempestades, são levados quando chega a hora. Então, o corpo deles nunca volta pra terra. Quase pareceu ver tristeza pela primeira vez naquele rosto perfeito, mas ela se vira e volta a arrastar ele pelas mãos. "Vamos até a Pedra da Sereia ver a entrega dos presentes!".


De longe, observam os barcos seguindo para onde o mar muda ligeiramente de cor. Colocados sobre as ondas, os balaios permanecem alguns segundos imóveis, até que as mãos de Iemanjá os puxam suavemente para o fundo. É sinal de que os presentes agradaram e que o ano será bom para pescadores, marítimos e todas as outras pessoas que estão lá.


Caminham lentamente de volta para o Largo da Mariquita, onde a animação segue intensa. A cerveja alivia o calor e ele sinto a pele ardendo por causa do sol. Mas não liga. Está feliz. Abraça Janaína junto a uma pedra e ele é como a pedra e ela o mar. Ouve um canto diferente. É iorubá e vem de um grupo de pessoas vestidas de branco e em roda. Ou não vem?


"Adoiá!" É a surpreendente e linda companheira que grita. Depois explica: "Para o pessoal de santo, ela é Inaê, a protetora dos negros nos porões dos navios. Graças a ela, eles chegaram vivos aqui e puderam trazer o axé para proteger a todos que também vieram dar nesta terra". Era o quarto nome de Iemanjá, ela explicou.


Pergunto pelo quinto nome. Ela faz uma pausa antes de responder: "É Maria, nome de mãe de Jesus, da mãe de todos. Nossa Senhora da Conceição da Praia ou da Boa Viajem. Tanto faz". Me olha como se lembrasse de alguma coisa. Sem que ele esperasse, tem os lábios umedecidos por um beijo antes de ver ela dar as costas e desaparecer rapidamente na multidão.


Já noite alta ainda procura reencontrar ela. Sente que nunca mais a verá, mas não pode deixar de procurar, naquela noite e em muitas outras, ano após ano, na festa de Iemanjá. Sente que nunca será completamente feliz, a não ser que ela o leve pelas mãos, como fez no meio daquela gente toda, naquela festa, até o Reino de Aiocá.


É dia de festa no mar e ele lembra disso assim que acorda.


*Do livro "Notícias de uma terra dessemelante"