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Procissão imperdível

Ou a percepção de que um bom argumento capital pode valer tanto ou mais do que o temor a Deus




Por Diogo Tavares*


Salvador, 1625


Uma salva de tiros de canhão com pólvora seca marca o início da procissão. Em frente ao Senado da Câmara, reúnem-se os edis, clérigos, negociantes abastados e oficiais militares com suas roupas de gala. Ao contrário das procissões tradicionais, que ocorrem ainda hoje em Salvador, aquela não era em homenagem a nenhum santo católico.


El Rey era o homenageado e as armas da Coroa ocupavam o lugar de destaque tradicionalmente reservado a personagens e símbolos mais divinos. Mesmo assim, a adesão da população se revelava total. Sem exceção, as pessoas que estavam na rua se juntavam ao cortejo. O motivo exato para tamanha participação, entretanto, era bem mais concreto do que a perspectiva de garantir ou não uma vaga no céu.


As procissões, às vezes difíceis de diferenciar de desfiles cívicos e militares, fizeram parte do cotidiano da capital baiana desde que Tomé de Souza chegou, em parada militar, para fundar a cidade. Os historiadores garantem que a primeira procissão propriamente dita teria sido a do Corpo de Jesus, em 1549. A data exata, no entanto, causa divergências. Alguns autores apontam o dia 13 de junho, enquanto outros afirmam que teria acontecido em 9 de agosto. Em todo o caso, ela seria descrita em carta que o padre Manoel da Nóbrega enviou ao provincial dos jesuítas em Portugal, padre Simão Rodrigues. Segundo o relato, o cortejo foi “mui solene, em que jogou toda a artilharia que estava na cerca, houve danças e invenções à maneira de Portugal”.


Durante os últimos 450 anos, Salvador foi palco vivo de incontáveis procissões. Algumas deixaram de ser realizadas com o tempo, como a dos Fogaréus. Outras mudaram do vinho para a água, como a de Corpus Christe, que chegou a ser parecida com as festas de largo, com batuques de atabaques e cantorias pouco católicas deixando beatos e religiosos de cabelo em pé.


Além das procissões de São Francisco Xavier, de São José, dos Passos dos Humildes e de Bom Jesus dos Navegantes, na Bahia colonial também havia a estranha Procissão dos Ossos, que não era exatamente uma das mais agradáveis. Instituída por determinação do rei Dom Manuel I, ela foi inicialmente realizada pela recém criada Irmandade da Santa Misericórdia e tinha como objetivo principal recolher os restos mortais de condenados à forca, que tinham corpos, ou partes deles, deixados nas ruas em decomposição.


Mas vamos voltar à procissão do início deste relato, a tal que tinha cem por cento de adesão das pessoas nas ruas. Era uma das chamadas procissões da Câmara e o motivo do sucesso não era nada cristão. Segundo deliberação do Senado da Câmara de 27 de agosto de 1625, quem estivesse na rua durante a passagem do cortejo e não se juntasse a ele pagaria uma pesada multa de seis mil réis.


*Do livro Notícias de uma terra dessemelhante

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