Receba nossas atualizações

  • Cidade da Bahia
  • Ícone do Facebook Branco

© 2019 por Escriba Comunicação & Consultoria. Criado com Wix.com

  • Cidade da Bahia

Piedade revive 40 anos do movimento Poetas na Praça


Cenário de açoitamentos quando era apenas um “morro” na frente da igreja e das execuções dos quatro condenados da Conjuração dos Alfaiates, em 1799, a Praça da Piedade, em Salvador, será palco na quinta feira, 29 de agosto, 16h, de uma homenagem a outro fato histórico surgido ali e que repercutiu em todo o país. Em 1979, há 40 anos, um grupo de artistas promovia uma “ocupação cultural” da praça, movimento que uniria artistas de vários segmentos e ficaria conhecido como Poetas na Praça.


Coincidentemente no ano em que as execuções dos condenados da Conjuração dos Alfaiates completam 220 anos, a Praça da Piedade vai reviver um movimento que teve a liberdade como artigo inquestionável. O sarau organizado por dois grupos “herdeiros” dos Poetas da Praça, o "Coletivo Poesia Além das 7 Praças" e a "Biblioteca Prometeu Itinerante", vai homenagear dois integrantes do movimento, os poetas Dori-Val Limoeiro e Zeca de Magalhães, mais conhecido como KZÉ, ambos falecidos. O evento aberto ao público contará com recital e exposição com fotos e publicações dos dois poetas.


Em janeiro de 1979, ainda sob os efeitos da abertura democrática, um grupo de poetas resolveu “ocupar” a Praça da Piedade, realizando um verdadeiro acampamento no local e passando a promover ali, diariamente, recitais, leituras e vendas de livretos. Faziam parte deste primeiro grupo, que depois ganharia muitos outros nomes, os poetas Antonio Short, Eduardo Teles, Zeca de Magalhães, Geraldo Maia, Ametista Nunes, Gilberto Costa, Margareth Castanheiro e Ronaldo Brag, além de artistas plásticos, ilustradores, cartunistas, dançarinos, músicos e cantores. Esta ocupação física duraria uma década e influenciaria no surgimento de movimentos semelhantes em outras capitais, como Rio de Janeiro, São Paulo, Porto Alegre e Belo Horizonte. Grupos semelhantes surgiriam também nas principais cidades do interior baiano, como Xique-Xique, Itabuna, Barreiras, Simões Filho, Feira de Santana, Camaçari, Cachoeira, Santa Maria da Vitória e Juazeiro.


Desde o início, o movimento Poetas na Praça foi marcado pela busca de alternativas e popularização dos meios de difusão artística. Também levou ao público questões pouco presentes até então na arte, como homossexualidade, preconceito racial, injustiça social e violência. Os recitais coletivos diários, iniciando geralmente às 16h, eram sempre abertos à participação dos presentes e, com o tempo, passaram a atrair artistas de outras áreas, cineastas, jornalistas e políticos, que em muitos casos adotaram em seu discursos propostas vindas da praça.


Para viabilizar as produções, os integrantes do grupo também chegaram a fundar nos primeiros seis anos duas editoras, a Tupyhanarkus e a De’lírio Noturno, responsáveis por grande parte das publicações na época. As editoras traziam para o grupo a experiência de outro gênero, a literatura de cordel, produzindo livretos que poderiam ser vendidos a preços baixos nas ruas das cidades.


Muitos dos integrantes do movimento adotaram a chamada poesia marginal, surgida nos anos 60, como fonte de renda para subsistência. É o caso de Zeca de Magalhães, que manteve os quatro filhos produzindo e vendendo livretos em bares e entradas de cinemas e teatros. Outros levaram do movimento uma experiência importante para redações, agências de publicidade, projetos de cinema, teatro e arte plástica.


Em 1986 o movimento enfrentou sua primeira dissidência, que levaria ao término da ocupação da praça no final da década. O motivo foi a publicação de uma Antologia dos Poetas da Praça, que, por questão de custo, incluiu apenas quatro dos autores. Alguns dos insatisfeitos fundaram o grupo dissidente Eco da Poesia da Praça, mantendo os laços e a origem do movimento original.


O fim da ocupação física e contínua da praça não encerrou o movimento. Ao contrário, o transformou em parte da cultura em todo o país, ganhando espaços em bares, teatros e universidades. Nomes como o jornalista Pedro Bial, o letrista Cacaso e o escritor Geraldo Carneiro flertaram com a poesia marginal. Ainda na década de 80, em São Paulo, o poeta Milton Aguiar ampliava o leque das opções apresentando o poema cartão postal, mostrando que o movimento ainda poderia render muitos frutos.


Quarenta anos depois da ocupação poética da Praça da Piedade, o legado do movimento continua presente. Em Salvador, neste ano de 2019, os saraus de poesia voltam a ocupar a agenda cultural, transformando bares, cafés, espaços culturais e também praças, é claro, em locais para declamação de versos. Muitas vezes em parceria com apresentações musicais. São eventos como “Sarau de Segunda, Arte de Primeira” (Instituto Goethe), “Prosa e Poesia” (Rio Vermelho), “Som das Sílabas” (Dois Cafés, Rio Vermelho), “Viva a Poesia Viva” (Barris), “do MAB”, “de Itapuã” (Casa da Música, Lagoa do Abaeté), “da Chácara” (Santo Antônio Além do Carmo), “Pós-lida” (Café do Walter, Barris), “Porto dos Livros” (Porto da Barra), “da Mata” (Mata Escura), “das Onças” (Sussuarana), “Bem Black” (Pelourinho) e “Fala Escritor” (escolas estaduais), entre outros. Exemplos de que, independente de local e hora, a poesia segue na praça.


Fotos reprodução do jornal A Tarde (Essa resistente poesia marginale, Diogo Tavares, 1987) e detalhe do livro “Movimento Poetas na Praça – Entre a transgressão e tradição” (2015), de Douglas de Almeida. Leia artigo sobre o movimento escrito em 2008 por Geraldo Maia clicando AQUI.