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Pai herói



Diogo Tavares*


Já vai longe o dia em que, tomando chope num barzinho em Copacabana, meu pai perguntou o que eu gostaria, entre seus objetos pessoais, que ele deixasse para mim quando morresse. A primeira coisa que me lembrei foi do antigo relógio de ouro, que me fascinava quando criança. Era de pulso, com correia de couro marrom e dois cronômetros, que deveria ser moderno quando foi comprado, lá por 1945. “O relógio eu já prometi para o seu irmão”, meu pai respondeu. A minha segunda opção pareceu pegar o velho militar, então reformado, de surpresa. “Então eu quero o seu diário de guerra para publicar”.


Este diário era quase uma coisa mitológica na minha infância. Meus irmãos diziam já ter visto e folheado escondido, pois meu pai nunca permitiu que fosse lido. Pelo que eu soube, apenas a minha avó, a mãe dele, tinha sido autorizada a ler. Eram dela os relatos da guerra, assunto sobre o qual meu pai nunca falou, o que ampliava ainda mais a curiosidade. Algumas vezes, ainda criança, cheguei a remexer os guardados de guerra do meu pai, mas uma antiga pistola alemã, a bussola, o capacete e as medalhas me atraiam muito mais do que um empoeirado fichário com páginas amareladas manuscritas, desbotados postais, fotos, mapas, desenhos e documentos.


Quando voltou da guerra meu pai deu o diário para apenas uma pessoa ler: a mãe dele, dona Dega. E foi através da nossa avó, que nós, filhos, ficaríamos sabendo algumas passagens do relato. Me impressionava em especial um trecho, no qual um projétil havia explodido no meio de um grupo de pracinhas, com o meu pai sendo o tenente entre eles. Todos foram atirados longe e, ao dissipar a fumaça e a poeira, um dos soldados havia desaparecido. Meu pai se viu coberto de sangue e sem o capacete, que havia sido arrancado da cabeça dele e se perdido. Conduzido ao posto médico foi informado que o sangue não era dele. Levaria para o resto da vida a necessidade de colocar algodões nos ouvidos para ir à praia para evitar otites. Resultado dos tímpanos estourados.


Como militar “de carreira” meu pai sustentou sua família. Último dos cinco filhos, já nasci com um pai coronel. Mesmo o admirando, sua rigidez militar nos afastava. Tinha princípios e exemplos incorruptíveis, mas a distância e a racionalidade não deixavam espaço para a emoção, talvez numa sequela mais grave do que os tímpanos estourados. Assim aprendemos a nos entender quase sem palavras.


Por isso, quando ouviu o meu pedido de que me desse o diário para publicar meu pai desconversou. Disse que nem sabia se ainda o tinha, que não imaginava onde estava e que achava aquilo sem importância. Só lembrei novamente desta história após a sua morte, quando recebi o diário totalmente organizado e quase todos os objetos da guerra guardados por meu pai.


Publiquei o diário como blog em 2004, nos 60 anos da campanha na Itália. No ano seguinte lancei a primeira edição em livro. Dez anos depois, nos 70 anos da participação do Brasil na Segunda Guerra Mundial, publiquei a segunda edição. Por duas vezes estive nas regiões da Itália onde os brasileiros lutaram. A população chama os pracinhas de “libertadores” e por ser filho de um deles sempre fui muito bem tratado.


Lá se vão 17 anos da partida de meu pai. Penso hoje que todo pai de verdade é herói, mesmo que sua maior guerra seja levar o pão para casa. No meu caso, considero um privilégio a mais ter herdado um diário que me revelou um pai que a rigidez militar ou o peso das lembranças sublimadas não permitiram que eu conhecesse durante o nosso convívio.


*Jornalista e escritor

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