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Pai de peixe


Diogo Tavares*


O menino era mesmo atentado, contou o velho, sem tirar os olhos das pernas da dona do bar. “Adoro mulher com canela fina. Ainda como essa mulher!”, disse, em alto e bom som, para que ela e todos no bar bem escutassem. “Deixe de coisa, que tu num dá pra mais nada”, gritou a mulher da cozinha. Ele então se virou para o pessoal da mesa ao lado e falou em tom de confidência: “Mulher de canela fina tem xibiu apertado”. O velho parecia ter esquecido de concluir o caso do filho dele, que, quando era menino, tinha aprontado uma boa na festa da Lapinha.


Estamos num barzinho, uma casa de porta e janela para uma rua estreita, em Itapuã. A proprietária, Alice, senhora de personalidade forte, tem como uma das características marcantes o fato de só atender a quem quer. Cliente novo que chegue sem companhia de conhecido dela corre o risco de ser posto pra fora. Conhecido também corre este risco, a depender do humor da proprietária. Sem papas na língua, certa vez chegou a implicar com o namorado novo de uma cliente. “Esse namorado não tá certo não, ele não tem porte”, disse na cara do vivente. E só serviu a mesa em deferência à cliente.


O velho então voltou a conversar com o pessoal da mesa ao lado. Se eram servidos por Alice, tinham passado num processo seletivo rigoroso. Quarenta segundos de prosa tinham bastado para o nome do filho dele surgir na mesa. Mas logo depois o assunto era outro. “Há mais de 20 anos que eu não bebo água. Só bebo cerveja assim, quente, tirada do engradado”, mostrou o velho, ressaltando que agora morava em Itapuã, enquanto o filho continuava na Lapinha. E foi lá que o caso aconteceu.


Podemos imaginar um grupo das mais respeitadas senhoras da Lapinha, uma delas inclusive beata com ares de representação da paróquia, pois o padre não pudera comparecer, bater à casa daquele senhor. Após cumprimentos educados, as senhoras teriam começado a contar o motivo da visita. Algo mais ou menos assim:


“O caso é que aconteceu uma coisa muito grave. O seu filho, sabe, andou fazendo uma coisa muito desagradável”, disse a porta-voz do grupo.


“De novo?!”


“É, sabe, o senhor precisa controlar este menino”.


“Sim, sei...”


É provável que, neste momento, o homem tentasse ver sob a bainha do longo vestido a canela da beata, mas isso não foi contado.


“Pois é. O seu filho fez, assim, coisas na cabeça da grande mártir da Bahia”.


“Como assim, senhora?”


“De Maria Quitéria”, socorreu outra senhora.


“Da estátua”, especificou a primeira.


“Ah, sim. Que coisas?”, perguntou o homem.


“Coisas assim, fisiológicas...”


“Xixi?”, arriscou o homem.


“Não. Coisas sólidas”.


“Ah, entendi! Ele fez cocô na cabeça da estátua! Minha nossa! Como será que ele conseguiu isso? Como foi que ele subiu? Esse menino vai longe”.


Ruborizadas, as mulheres devem ter saído quase correndo. Anos depois, nem perderiam tempo reclamando da volta olímpica que o rapaz daria no largo, completamente nu, para comemorar a vitória do time de futebol, o Vitória.


Em todo caso, naquele bar de Itapuã, uma coisa ficava certa: quem puxa aos seus não degenera. Não é Bougê?


*Piblicado originalmente no jornal Correio da Bahia, reprodução da ilustração de Flávio Luz.