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Outra de frei Bastos

Ou como o já citado religioso se saiu com uma grande cartada para virar o jogo e regozijar o público

Diogo Tavares*


Salvador, 4 de outubro de 1815


Saiu com dois azes. Pediu três cartas e foi descobrindo-as aos poucos, chorando: a pontinha vermelha, o naipe certo, outro az, um rei, o quarto az. Evitou o sorriso pra não entregar o jogo e não teria demorado tanto na aposta se estivesse atento ao relógio. Os três coroinhas que participavam do joguinho com ele na sacristia atiraram as cartas sobre a mesa enquanto um deles murmurava: “O bispo, o bispo vem vindo...”


Ao entrar na sacristia, o bispo responsável pela Assistência Pontificial viu frei Francisco da Silva Bastos sentado, cabisbaixo, diante da grande mesa de madeira, onde tinha os cotovelos apoiados, e reparou na sala quase clara que os braços dele balançavam, tremendo num involuntário reflexo da profunda contrição. Tremiam sim, principalmente o esquerdo, enquanto as cartas do baralho escorregavam manga da batina a dentro. Emocionado com o que via, mas prático, o bispo segurou Frei Bastos delicadamente pelo pulso e o arrastou dizendo: “Vamos, meu filho, o arcebispo está aguardando a missa”.


Não consta que a cena acima tenha acontecido exatamente como descrita, pois as testemunhas não deixaram relatos precisos, mas é fato que frei Bastos, então com 37 anos, teve que interromper o jogo às pressas e escondeu as cartas na manga, naquele 4 de outubro de 1815, quando seria o principal orador da missa em homenagem ao fundador da Ordem a qual pertencia. Também é bem possível que, com o estilo de vida que levava, o frei estivesse tentando limpar os bolsos dos sacristãos para ajudar nas despesas com copos e mulheres na zona do meretrício.


Mas, naquele dia, arrastado pelo bispo para a nave da igreja, o frade cumpriu o ritual sobriamente. Pelo menos uma parte dele. Na hora da pregação, aquele que era considerado por muitos como o dono da voz de Deus, não se conteve. Tomou-se de emoção e, num gesto mais contundente, abriu os braços e fez espalhar pelo chão da igreja as cartas do baralho. Calou-se, sem demonstrar surpresa diante dos olhares escandalizados dos fiéis, e o silêncio tomou conta do templo por alguns segundos. Segundos que pareceram muito mais longos.


Frei Bastos, então, olhou calmamente para as cartas. Olhou em volta e, depois, pediu que uma criança sentada na primeira fileira de bancos pegasse uma das cartas. Ela pegou. Ele perguntou que carta era. A criança respondeu corretamente. Em seguida, mandou que a criança ficasse de joelhos e rezasse o Creio em Deus Padre. A criança se ajoelhou, mas não conseguiu rezar.


Com expressão decepcionada, frei Bastos voltou-se novamente para todos os fiéis e recomeçou a pregação: “Vê-des, caríssimos irmãos em Cristo, a que chegamos nós. Uma criança, no pleno verdor da infância, não conhece uma simples oração de nossa santa religião. Entretanto, conhece com bastante facilidade os símbolos do vício”. Prosseguiu com uma longa preleção, comparando o vício e a virtude, que teria sido muito aplaudida se o ritual permitisse. Muitos baralhos devem ter sido queimados naquele dia e é provável que alguns dos presentes nunca mais tenham colocado as mãos em um. Não foi o caso de frei Bastos, sempre pronto para um carteado. Afinal, não podia pregar sem conhecimento de causa, e ele era o maior orador da cidade do Salvador, de quem muitos diziam ter a voz de Deus.


*Texto do livro "Notícias de uma terra dessemelhante" (2018)