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Os hábitos de Frei Bastos

Ou o caso do religioso que, não obstante alguns vícios pouco cristãos, fazia o maior sermão

Diogo Tavares*

Salvador, 28 de maio de 1806


“Maldito seja o Pai, maldito seja o Filho e maldito seja o Espírito Santo”, proferiu Frei Bastos, a frente do altar da Catedral Basílica, para espanto de todos os presentes à missa, inclusive do arcebispo dom José de Santa Escolástica.


A preocupação era maior ainda para os que conheciam as histórias que contavam por toda a cidade sobre aquele estranho franciscano, que, apesar de ser um grande orador, talvez o melhor, passava noites e mais noites dedicando-se menos a orações do que ao jogo, à bebida e às mulheres no meretrício. E se alguém conhecesse o irrecusável apelo que o levou à vocação sacerdotal e soubesse o que tinham lhe feito lembrar dias antes da missa, então, estaria apostando: excomunhão na certa.


Mas vamos a alguns fatos anteriores àquela missa aparentemente herética, no domingo da Santíssima Trindade. Para ser direto, em verdade vos digo: frei Bastos era um safado. Não dos que prejudicam ao próximo, mas dos que não conseguem ficar longe dos prazeres e dos vícios do corpo. Seus porres homéricos, que incluíram dormidas em mesas de bordéis, e sua constante libidinagem com as meninas do brega, aliados a uma paixão pela jogatina digna dos melhores carteados da cidade do Salvador, eram comentados em todas as esquinas da Rua Chile e até no cais do Mercado do Ouro. Era verdade que, de tempos em tempos, ele desaparecia, menos por opção do que por ordens superiores. Com freqüência, o clero o sentenciava a ficar trancado em uma cela, sob vigilância, no Convento de São Francisco. Mas frei Bastos sempre voltava à ativa, após cumprir a reclusão forçada com a qual tentavam fazer-lhe adotar melhores hábitos sem perder o de frei.


Sem dúvida, era um péssimo exemplo para o rebanho na Bahia colonial do Século XIX, mas, se serve de justificativa, também nunca quis ser padre. Queria mesmo é casar com a prima Thereza, mas o pai dele, o rico negociante Joaquim Pereira Bastos, decidiu, como era de se decidir naquele tempo, que o filho seria padre. E o forçou a entrar no convento, no dia 31 de agosto de 1794, com 15 anos. Thereza fez o mesmo. Em outro convento, naturalmente: o das irmãs Ursulinas. E foi sobre Thereza que um distraído amigo da família falou a Frei Bastos, comentando que ela tinha se tornado uma freira exemplar e aconselhando que ele seguisse o exemplo. Para esquecer do inconveniente, bebeu alguns cálices do sangue de Cristo a mais do que o necessário para a liturgia, entre outros líquidos menos cristãos, e foi celebrar a tal missa.


Então estamos diante de uma assistência atônita na Catedral Basílica, inclusive o arcebispo, ouvindo frei Bastos maldizer a Santíssima Trindade e repetir a blasfêmia várias vezes, para que todos ouvissem: "Maldito seja o Pai, maldito seja o Filho e maldito seja o Espírito Santo!". A igreja se encheu de “ohs” e, perante coroinhas e padres auxiliares desesperados olhando em volta, o próprio arcebispo se levantou para repreender o satânico pregador. Poderia ter sido o fim da carreira deste grande orador cristão, mas, com incrível tranqüilidade e firmeza, frei Bastos prosseguiu: “Assim dizem os incrédulos, os ateus e os condenados. Eu vos concito, entretanto, irmãos, que bem-digais o Pai, o Filho e o Espírito Santo, as três legítimas e verdadeiras pessoas da Santíssima Trindade”. Prosseguiu o sermão, então, com comentários dignificantes sobre o mistério da Santíssima Trindade.


Após a surpresa inicial, o arcebispo sentou para ouvir o sermão daquele jovem frade de 26 anos. Em poucos minutos já não tinha o semblante carregado. Depois, poderiam dizê-lo feliz, quase sorrindo. Frei Bastos impressionou tanto que, ao fim da missa, foi recebido pelo arcebispo, ganhando dele um abraço emocionado. Não se sabe ao certo, mas chegou-se comentar pelas ruas da cidade que a frase tinha saído da boca do próprio arcebispo. Outros a repetiram sem saber a origem do comentário: “Esse frade é um enviado de Deus”.


*Cpítulo do livro "Notícias de uma terra dessemeljante", publicado em 2018

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