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Os doutores da bola


Diogo Tavares*


O jovem Octavio não era musculoso como os atletas do Clube de Regatas. Também não tinha a menor vontade de acordar de madrugada para remar até ficar malhado. Mas ele ficou sabendo que um grupo de sócios do clube havia formado um time de um esporte ainda novo, que vinha se tornando cada vez mais popular. Uma peleja que se praticava com os pés e uma bola, sem a necessidade de largos bíceps.


O pai de Octavio, o doutor Augusto, prático e dono de farmácia homeopática na Praça Saes Peña, membro da Loja Grande Oriente do Brasil, havia se tornado sócio daquele clube, fundado em 17 de novembro de 1875. Talvez pensasse que a disciplina do remo fosse boa para os filhos estudantes. Mas o que se viu foi que os eventos sociais atraiam mais os jovens do que o esporte principal do clube. Até que criaram aquele novo time, iniciando uma paixão que cresceria durante o século seguinte.


Octavio não fez parte daquele elenco inicial, mas acabaria participando de um dos primeiros escretes de foot ball do clube. Como ele, estudante de Direito (depois também de Medicina), os sócios formariam um time competitivo formado basicamente por futuros advogados e médicos, que ficaria conhecido como “time dos doutores".


Minha avó Dega (Edegardina) gostava de contar esta história e, com ela, nos convencer de que éramos flamenguistas querendo ou não. Ela, sim, era uma torcedora fervorosa. Só dividia a atenção da narração dos jogos nas rádios Tupi e Globo, e da Ave Maria das 18h, com o programa do amigo Chacrinha. Foi ela que nos contou que a ligação com o Flamengo vinha do meu avô, Octavio.


Não creio que o “time dos doutores” tenha obtido grandes títulos, mas o futebol ainda era amador e, no caso, uma diversão dos sócios. Mas foi por causa daquele time, e da torcida ferrenha da minha vó, que praticamente todos na nossa família nos tornamos torcedores do Flamengo. Quase todos da torcida discreta, como meu pai Italo, que nunca vi usar uma camisa que fosse rubro-negra, mas que em seu diário da Segunda Guerra Mundial, no navio de volta ao Brasil, relataria:


“Soube hoje que a chegada será dia 18 às 18h30. Já se ouve no rádio as estações brasileiras: a Nacional, a Tupi e outras. Ontem ouvimos a irradiação do jogo Flamengo e América, que infelizmente acabou com a vitória deste último”.


Naquele dia 15 de julho de 1945, embarcados num navio, a transmissão de uma partida de futebol ajudava os pracinhas a pensar na volta à vida normal. Até mesmo a vitória do América, na época um grande time, contribuía com a normalidade.


Após as conquistas da Libertadores e do Campeonado Brasileiro num intervado de 24 horas, os torcedores do Flamengo é que terão agora o desafio de retomar a normalidade. Com a vantagem de que, apesar de mobilizador, é esporte, não é guerra. Cabe aos novos doutores da bola tornar isso claro, com seu exemplo, para que cenas de violência não estraguem a festa. E para que as nossas comemorações não se limitem a uma torcida e a um esporte.


*(Eduardo) Diogo Tavares é jornalista, consultor de comunicação e escritor