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O trabuco de Caramuru, Catarina, Moema e a santa

Ou como o português Diogo Alvares Correia cumpriu o mandamento bíblico com mui empenho e prazer


Diogo Tavares*


Aquele Caramuru nunca estava na oca quando ela precisava dele. Quando não andava metido na rede de outras índias, era fazendo favores para os brancos. Com as índias era até bom, não gastava e ele voltava logo bem disposto. Mas aquela mania de suar o corpo pelos caraíbas em troca de alguns barris de vinho e um punhado de rodelas brilhantes, ela não entendia mesmo.


Lá estava Caramuru, a ultramar batizado como Diogo Alvares Correia, nas praias distantes do sul, tentando evitar que alguns náufragos de um navio espanhol fossem comidos por índios de tribos inimigas. Que besteira! Se eles eram chegados à carne branca, que deixasse com eles o banquete. Mas não, ele tinha que pegar o trabuco e ir lá com um punhado de guerreiros. E ela, Catarina Paraguaçu, filha preferida do chefe Taparica, ali largada, sem notícias, agoniada com o sonho que tivera durante a noite: via um navio e, depois, uma mulher muito branca e bonita caminhando na praia com uma criança no colo.


Para desanuviar o pensamento, tratou de recordar o dia em que a tribo encontrou Caramuru com o trabuco na mão. Era uma manhã de sol e os índios iam pescar petitingas na "Mairaquiquiig" (Mariquita), ou "lugar onde dá peixe miúdo". Só que, ao invés de peixinhos, encontraram o bípede desengonçado acocorado sobre a Pedra da Concha. Os índios se aproximaram resignados. Já estavam enjoados do gosto, depois de fazer um banquete com os companheiros de Diogo Álvares que haviam sobrevivido ao naufrágio de um navio francês. Preferiam fruto do mar, mas se Tupã tinha mandado mais aquele inimigo para servir de iguaria, que fosse.


Quando se aproximaram, entretanto, Diogo teve a ideia de botar o trabuco pra funcionar. Apontou para uma ave marinha e mandou chumbo na bicha, que caiu dura aos pés dos silvícolas. "Caramuru! Caramuru!", teriam gritado eles, fascinados. Diziam, em tupi, segundo a versão mais comum: "Homem do fogo, filho do trovão, dragão saído do mar".

Mas, como o povo tem língua comprida e inquieta, há quem diga que chamaram o cabra de Caramuru mesmo porque era o nome que usavam e que ainda se usa na Bahia para enguia, ou moreia, peixe-cobra que se esconde nas pedras.


Mas vamos apostar na primeira versão, já que é mais nobre, embora a segunda tenta tudo a ver. Em seguida, o gajo foi levado para a aldeia dos tupinambás, onde o chefe Taparica fez questão de ser o primeiro a segurar o trabuco. Ficou tão impressionado com o negócio que, tempos depois, diante dos olhos brilhantes de inveja das outras índias da tribo, deu a filha Paraguaçu em casamento ao forasteiro.


Nos anos seguintes, Diogo Álvares, que independentemente do motivo ganhou a alcunha de Caramuru, se dedicou com afinco à arte de demonstrar o funcionamento do trabuco para índios e, principalmente, índias. Uma entre elas, Moema, era a mais bonita da tribo. Só tinha um defeito, como veremos mais à frente.


Um dia apareceu na costa outro navio francês. Antes que os índios pudessem pensar no banquete, entretanto, o português tratou de usar o prestígio conquistado e agiu como diplomata. Foi cicerone e intérprete dos forasteiros e, de quebra, tratou de colocar um bando de índios a cata de árvores de Pau Brasil, que foram devidamente derrubadas, embarcadas e levadas para a França. Seja por vontade própria, ou para atender a interesses comerciais dos amigos franceses, o navio partiu e Caramuru ficou. Para matar o tempo, poderia providenciar outro carregamento de Pau Brasil. Então era pau pra todo lado!


Tal relacionamento se mostrou muito lucrativo. Para os franceses, é claro. Provavelmente visando selar mais ainda os laços diplomáticos e assegurar maiores lucros comerciais, o capitão francês Jacques de Cartier, por volta de 1528, convenceu Caramuru e viajar para a França acompanhado da esposa e de alguns outros espécimes nativos. Lá, seriam recebidos pela rainha, Paraguaçu poderia ser reconhecida como cristã e eles se casariam na igreja. De quebra, ela ganharia também o nome cristão de Catarina, mas não vamos nos afastar muito dos trópicos.


Quando o navio levando Caramuru e Paraguaçu para terras francesas começou a se distanciar da praia, a índia Moema provou que era realmente louca pelo lusitano e se jogou no mar, tentando seguir a embarcação a nado. Seguiu até não aguentar mais e, sem mais forças, desapareceu no mar da Bahia. Era a mais bela, mas tinha o defeito de não ser filha do chefe.


Quando voltou à terrinha, Caramuru retomou seus afazeres entre as índias que não eram filhas do chefe. Entre uma rede e outra, fazia as honras de embaixador a franceses, embora ideologicamente não tivesse nada contra espanhóis e portugueses. Foi justamente para evitar que alguns espanhóis virassem refeição de tribos inimigas dos tupinambás que Caramuru reuniu alguns guerreiros e rumou para o sul, deixando Catarina intrigada com o sonho.


É assim que nós podemos vê-la andando de um lado para o outro na aldeia. Durante três noites seguidas tivera o mesmo sonho: uma mulher branca, com a criança no colo, caminhando por uma praia deserta. Sem poder esquecer a imagem, mandou um grupo de índios correr as praias próximas, da praia do Bafo Quente (Pituba) à Pedra Que Ronca (Itapuã), mas nada foi encontrado. Quando Caramuru regressou trazendo alguns sobreviventes estropiados, ela contou o sonho ao marido. Ele disse que era apenas um sonho e, à noite, diante da mulher insone, fez juz ao nome e roncou como o trovão. No dia seguinte, entretanto, Catarina não deixou o marido em paz. Quando ele pensava em dar uma escapadinha para a rede de outra índia, lá estava a dona encrenca cobrando uma providência. Garantiu que não havia mulher nem criança no barco que afundou, mas não adiantou. Catarina jurava que o sonho era verdade. Para recuperar a paz e a liberdade, Caramuru mandou um novo grupo de índios com o compromisso de vasculhar todas as praias do sul, pra lá da ilha da Cerca de Pedras (Itaparica). E lá foram eles.


Foram muitos dias de busca, até que os guerreiros encontraram, na oca de uma índia, uma imagem da Virgem Maria com o Menino Jesus no colo. A imagem, que estava no navio que naufragou, era a mesma do sonho, jurou a convertida Catarina assim que a viu. Comovida pela dádiva da descoberta, a índia então chamou a santa de Nossa Senhora da Graça. Para abrigar a imagem, mandou construir uma ermida, que depois se transformaria na Igreja da Graça. A história agradou bastante aos religiosos católicos, que provavelmente ajudaram a retocá-la. De mais agrado ainda foi o monte de terras que Catarina tratou de doar para as ordens religiosas da Bahia.


Bom, enquanto isso Caramuru prosseguiu nas coisas que melhor sabia fazer: negócios com os brancos e sexo com as índias. Entre tais tarefas, ajudou o português Francisco Pereira Coutinho a fundar o primeiro povoado em Salvador, a Vila do Pereira, ou Vila Velha, em 1536, e garantiu o auxílio dos índios quando Tomé de Souza e sua trupe desembarcaram, em 1549, com a missão de fundar a Cidade do Salvador por bem ou por mal. É verdade que o velho trabuco, desgastado pela ação do tempo e do salitre, já não exercia o mesmo fascínio de antes na tribo. Também já havia armas mais novas e potentes. Mas o trabuco cumprira sua função. Ao morrer, muitos anos depois de ter sido encontrado pelos índios no Rio Vermelho, Caramuru tinha quatro filhos com Catarina Paraguaçu, 16 reconhecidos com várias outras índias e sabe-se lá quantos desconhecidos. Portanto, ajudara não apenas a fundar a cidade do Salvador, mas principalmente a povoá-la.


*Crônica do livro “Notícias de uma terra dessemelhante”, lançado em Salvador em 2017.