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O telhado de seu Zé


Diogo Tavares*


Era uma casa antiga, daquelas que a natureza deixou de pé só por provocação. Aliás, podemos dizer velha, datada de 1932. Ou melhor, abandonada seria a palavra ideal para a construção. Estava literalmente caindo aos pedaços, com duas janelas e uma porta tombados. E não era pelo Patrimônio Histórico. Mas o telhado, para compensar, era internacional: parecia um queijo suíço.


O problema era que, apesar da razão dizer o contrário, eu e a muié fomos com a cara da pobrezinha, uma maltrapilha vestida de rosa, com suas janelas tristes caídas como os olhos de um cachorro abandonado. Foi como aquelas paixões, que podem levar um homem à glória ou à ruína. E dava para comprar com o FGTS.


Vou pular o dia em que tomamos posse oficialmente e tivemos que acordar um catador de latas de alumínio que estava sob nosso recente e esburacado teto. Também vou pular renegociações de IPTU atrasado, água e luz, pois são questões muito banais para ser tratadas aqui. O lado bom, se é que havia, era poder recriar o espaço, pensar em horta e fonte no jardim, árvore, passarinho e galinha. É claro que é exagero, mas imaginação não tem limite. Cada espaço que pensávamos em recuperar ou criar geralmente ganhava um nome em homenagem a amigos, família ou colaboradores. Assim, surgiram a Cozinha da Nana, o Bar Velho Octavio, a Toca dos Coelhos e a Praça dos Artistas. Assim, por linhas tortuosas, acabou surgindo o Telhado de Seu Zé.


Antes de mais nada, precisávamos dar um jeito em portas, janelas e no telhado. Foi aí que seu Zé entrou na história. Mestre de obras no interior, seu Zé estava reformando a casa da fazenda de minha sogra. Homem bom, simples e bem humorado, de rosto que não revelava a idade, ele tinha a mania de responder a gente com outra pergunta. De forma que a conversa inicial foi mais ou menos esta:


“Seu Zé, seu Diogo e dona Nádya estão precisando fazer uma reforma urgente na casa deles em Salvador. O senhor aceita parar a obra um pouco e ir dar um jeito na casa deles?”


“Seu Diogo e dona Nádya? Não vou o que dona Nadyr?”


“Mas, veja lá seu Zé! Logo que puder, o senhor volta para acabar o serviço aqui”.


“Eu não volto o que?”


Seu Zé tinha uma penca de filhos. Um dos mais velhos era protético prático, responsável pelo sorriso “colgate” do pai. Outro era ajudante de obras de seu Zé. O mais novo, com menos de um ano, era com a última mulher, Rosa, vários anos mais nova do que o marido.

Com uma prole tão numerosa, não é totalmente de se estranhar que seu Zé não lembrasse o nome dos filhos. Só os tratava por apelidos, que não tinham nada em comum com os nomes. Eram coisas como Cotinha, Filó, Nhô, Nem, Branco, Pintado, Comprido, Pelanca, Xexéu e assim por diante. Ele viajaria para Salvador com Flô, que, na verdade, se chamava Josafá.


Seu Zé gostou logo da casa, fez amizade com os vizinhos e tomou gosto pela vida na capital. Como casa antiga e carro velho sempre têm o que consertar, o trabalho não acabava. E seu Zé também não parecia ter pressa de voltar pro interior:


“O senhor gosta daqui, não é seu Zé?”


“Como não gostar de um lugar tão bom de morar e tão silencioso pra dormir?”


“Seu Zé, e dona Rosa? Não está com saudades dela?”


“Que saudade, seu Diogo? Com tanta morena bonita passando aqui na frente?”


Sem muita vontade de voltar e com muito o que fazer, seu Zé foi ficando. Quando dona Nadyr ligava reclamando que a obra lá estava parada, seu Zé respondia: “E eu vou abandonar a obra de seu Diogo e dona Nádya?”


Assim foi Natal, Ano Novo e Carnaval. Seu Zé mandava dinheiro toda semana pra mulher, mas não demonstrava a menor vontade de voltar. Até que achamos que a casa estava pronta para esperar que o projeto final da reforma ficasse concluído. Seu Zé voltou um pouco contrariado para o interior e nós depois de algum tempo ficamos sabendo do drama que se desenrolou.


Enquanto ele se esmerava em remendar o telhado alheio em Salvador, o da casa dele foi invadido por um gatuno com fama de Ricardão. Aproveitando a longa ausência do dono, o malandro destelhou a cumeeira e andava traçando dona Rosa. No meio do furdunço que se seguiu, dona Rosa tratou de pegar os panos e cair no mundo, deixando até o bacuri pra seu Zé cuidar.


Há alguns dias pedimos para chamar seu Zé para recomeçar as obras da casa:


“Não vou o que, dona Nadyr? O perigo é eu derrubar o telhado todo quando entrar com a galhada que a mulher boto na minha cabeça, não é?” Depois caiu na gargalhada.


*Publicado originalmete no jornal Correio, ilustração de Flávio Luiz/reprodução

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