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O tapa do papa e a mão de Deus


Diogo Tavares*


Mais do que os folguedos da virada, o romper do ano foi marcado pela bomba dos tapinhas que a santa mão papal desferiu nos braços de uma fiel que insistia em agarrar sua santidade. Ao subir em suas tamancas franciscanas e exibir uma carranca digna da Greta “infância roubada”, o papa deu um péssimo exemplo, que ganhou ares de hipocrisia com o primeiro discurso do pontífice em 2020, no qual condenou a agressão às mulheres.


Entre dezenas de “memes” e perplexidade geral da nação, seu Zé manteve-se impassível diante do copo de cerveja. Olhou o vídeo no celular de outro frequentador do bar e, após segundos de reflexão, ponderou: “Isso não me surpreende. Já era de se esperar”. Mas vamos primeiro a outras considerações de cunho filosófico.


Fosse uma celebridade de patente mais baixa, sua santidade seria devidamente alvo de execração pública e não faltaria a quem no Brasil lembrasse a Lei Maria da Penha. Como qualquer figura pública, caberia ao papa saber que este tipo de assédio acontece e quem não quer correr o risco de passar por isso deve ficar bem longe do público. Pior do que uma mera irritação pessoal, como tentou justificar, o papa agiu contra a própria fé ao se portar ao contrario de tudo aquilo que prega perante milhões de fieis ao redor do mundo.


Digam que o papa é uma pessoa comum e que por isso pode se irritar como qualquer um. Não é e não pode. Ele representa uma ideia e construiu uma imagem de papa mais humano, mais humilde, mais caridoso do que seus antecessores. Agir contra a própria imagem “construída” coloca em cheque convicções que estão além do comportamento individual.


No recente filme “Dois papas”, dirigido pelo brasileiro Fernando Meirelles e lançado na Netflix, Francisco, ou o argentino Jorge Mario Bergoglio, é pintado como um religioso humano, preocupado com o social, humilde, progressista, enquanto seu antecessor Bento 16, o alemão Joseph Ratzinger, aparece como mal humorado, antipático, conservador, manipulador e ambicioso. Utiliza-se de pensamentos reais dos papas, cenas imaginadas e convicções pessoais para criar uma dicotomia política entre a boa e a má igreja.


O tapinha papal mostra que esta manipulação ideológica não passa de uma balela, que desrespeita o princípio básico de que as pessoas são complexas, com facetas boas e más. Mas no âmbito público, a liturgia do cargo não dá espaço para o humor próprio.


É aqui que nós voltamos a seu Zé. “Como assim isso não surpreende? Como já era de se esperar?” Diante das perguntas dos companheiros de botequim, seu Zé tomou um copo de cerveja, pigarreou para aprumar a voz e respondeu: “Afinal, cedo ou tarde todo argentino perde a paciência e faz uma falta sem bola”. E completou: “Isso quando não faz um gol de mão e diz que foi a mão de Deus”.


*Diogo Tavares é jornalista, consultor de comunicação e escritor

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