• Cidade da Bahia

O tango ficou só


Jeová de Carvalho*


O Tabaris regurgitava de luzes e cores. E era Mario – o grande e mítico cabaretier – quem anunciava:


“Terminado o show do balé de Carlan, vamos assistir nesse instante um concurso de tango”.

Mário tomou, no braço, a jovem Maria, atualmente uma boa afortunada senhora da sociedade, e foi de um lado a outro da pista exibindo a arte de seus passos, com uma elegância portenha que nem de longe Ihe lembrava a origem sergipana da cidade de Boquim. Seguiu-lhe o locutor Rodrigues Filho, hoje advogado no foro criminal.


De repente, por entre as pilastras de vidro, surgiu o perito e cronista esportivo Baimonilson Lisboa. A pista se encheu de grandes bailarinos como Eládio Freitas, Roberval Dórea e José de Miranda Filho, o professor Mirandão, carregando nas costas uma carga pesada de milhares de madrugadas.


Mas, quando o salão foi se esvaziando, eis que um moreno alto, filho das terras sanfranciscanas de Remanso, vendedor de aguardente na praça de Salvador e, ao lado de Jorge Árabe dono de um dos primeiros "inferninhos" da noite baiana na Rua do Bispo, escorrega os sapatos de "oleado", bico fino, na coreografia do tango com sua partner, Nadir, merecendo uma medalha do velho Mota, obedecendo um número especial das vedetes de Carlan e o champanha francês na primeira mesa. O pistonista Almerio Ihe executou antigos tangos dançados por Rodolfo Valentino, de quem aprendeu em Buenos Aires oitenta e dois passos.


Fechado o Tabaris, passadas suas noites de gala, ele - o bailarino Valdemar Cavalcante Pithauhy - pegava seus velhos discas e saía, com Nadir, a percorrer as boates e, onde Ihe era possível, se punha a dançar. Sempre com um cravo branco na lapela do paletó escuro - "porque tango-dizia - é uma dança nobre e deve ser vivido com muita solenidade”.

No dia 31 - sem poder prevenir o que o destino Ihe reservava- veio me dar o abraço do Ano Novo:


“Mulato, muito dinheiro pra você. Parque até saúde depende dele”.


Sobre minha carteira deixou um pacote: era um calendário da aguardente que vendia. Anexo o endereço: "Rua Juazeiro, Itapuã, feijoada certa e uma vitrola com tangos".


Na madrugada seguinte, talvez umas cinco horas depois, um ônibus passava por cima de sua Kombi e ele morria. Tenho a impressão de que o tango ficou só.


*Do livro “A cidade que não dorme”

Receba nossas atualizações

  • Cidade da Bahia
  • Ícone do Facebook Branco

© 2019 por Escriba Comunicação & Consultoria. Criado com Wix.com