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O soldado que levou um batalhão de foliões à Ribeira

Ou como tudo acaba em festa nessa terra, sem com isso necessariamente desrespeitar o Senhor do Bonfim



Diogo Tavares*

Salvador, janeiro de 1871


Ele chegou sem chamar a atenção e armou a barraca de campanha ao sopé da colina, nas proximidades da igreja. Ali ia aguardar até a missa do Nosso Senhor do Bonfim, no domingo, quando poderia agradecer a Jesus, Oxalá dos negros, por ter voltado são e à salvo do inferno da Guerra do Paraguai, conflito tão sangrento que entre 1865 e 1870, quando acabou, tinha dizimado dois terços da população paraguaia. Mas isto é outra história.


Magro e debilitado pelas longas marchas, ele buscou a sombra de um ficus para se proteger do sol e sentou-se pacientemente. Aquela figura tranqüila, num uniforme militar surrado e ao lado de uma barraca do exército, chamava a atenção de todos que passavam. Alguns queriam saber quem era e perguntavam o nome dele. O soldado respondia pacientemente: "Pedro Luciano das Virgens, praça do 41º Batalhão de Voluntários da Pátria". Era um dos 15.227 homens pobres, mulatos, negros libertos ou escravos, mandados da Bahia para defender o império brasileiro em seu outro extremo, nos Pampas do Sul.


Muitos anos antes daquela guerra os escravos recebiam dos seus donos a ordem de lavar a igreja, deixando o templo arrumado para a missa dominical. Levavam, é claro, com potes de água, sabão e esfregões. Também levavam cachaça, bebida apreciada por Exu, que alegrava o trabalho. Depois passaram a levar também os instrumentos de batuque, que atraíam o próprio Exu. Com Exu, vinham Oxalá, Iansã, Oxum, que se faziam anunciar em cânticos e danças.


Nos anos seguintes a prática continuou, cada vez mais apreciada pelos negros. Diante das cenas que afrontavam a sobriedade do templo católico, os padres resolveram interceder. Estava proibida aquela lavagem profana. O hábito, entretanto, estava criado e, na quinta-feira anterior à missa, lá estava o povo. As pessoas caminhavam da igreja da Conceição da Praia ao Bonfim. Se não podiam lavar a igreja, levavam flores e água de cheiro para purificar as escadas do adro. Também reverenciavam Oxalá, outro nome do Senhor do Bonfim. Os padres, insatisfeitos, tentaram acabar com aquilo, mas a cada ano o número de pessoas era maior.


Então, eis que a barraca do heróico soldado baiano se tornou parada obrigatória do cortejo naquele ano. Todos queriam saber mais sobre ele, sobre a guerra, sobre a fé. Ele respondia, titubeante. Não entendia muito de política, só queria agradecer a Jesus e seguir, não sabe pra onde, a sua vida. Ia agradecer ao Senhor do Bonfim, isso ia, depois o destino cabia a Deus.


Para a população presente era tudo que bastava e todos prestavam solidariedade ao combatente, certos de que o Senhor do Bonfim, ou Oxalá, tinha de fato ajudado ele a voltar vivo da guerra, assim como ajudaria a todos que tivessem fé.


Finalmente, no domingo, quando já tinha se tornado uma figura popular, o herói cumpriu sua promessa assistindo a missa. Missão cumprida, desarmou acampamento na madrugada de domingo para segunda-feira e seguiu para a Ribeira, onde armou novamente a barraca. Não tinha a menor idéia de que estava prestes a criar uma nova festa na Bahia.


Na segunda-feira, as pessoas procuraram pelo herói no Bonfim. Após algumas perguntas, ficavam sabendo que ele tinha transferido o acampamento para a Ribeira. Então, rumavam para lá. Logo, formava-se uma roda de samba perto da barraca para alegrar o sofrido soldado. A música, então, atraía mais pessoas.


Nos anos seguintes, mesmo sem o soldado, a reunião se repetiu e cada vez mais gente aparecia no local após a Festa do Bonfim. Como o soldado, barraqueiros de comida e bebida passaram a transferir suas tendas durante a madrugada para a Ribeira. Instituiu-se desta forma a Segunda-feira Gorda, conquista histórica e involuntária de um herói quase anônimo.


*Publicado no livro "Notícias de uma terra dessemelhante"