• Cidade da Bahia

O pau cabeludo

Ou como um herói anônimo impediu que um momento cívico acabasse em vergonhoso e retumbante fiasco



Diogo Tavares*


Cachoeira, 1º de junho de 1996


Foram muitos discursos na Câmara de Vereadores sobre a importância histórica daquela data, início das comemorações da independência do município, a culminar no glorioso 25 de junho. Da Cachoeira libertada, havia sido possível em 1823 seguir a ofensiva contra os partidários da colonização portuguesa e promover a Independência da Bahia, 2 de julho, consolidando quase dez meses depois o que fora apregoado no Grito do Ipiranga.


Como orador oficial da Filarmônica Lira Ceciliana, Raimundo Cerqueira comparou Cachoeira ao corpo humano, com uma grande espinha dorsal. Em um dos extremos, o bairro do Caquende, a cabeleira nos terreiros de candomblé, expressa em fios e sob domínio dos orixás. Mais abaixo o pensamento, a cabeça, na Praça da Aclamação, onde o povo pediu ao imperador em visita - e Dom Pedro I depois acataria - a independência do Brasil. O coração mais abaixo, com os poetas e os namorados na praça, e os casamentos na Igreja de Nossa Senhora do Rosário. Por fim, o estômago, no mercado e na feira, e as pernas, no outro extremo, na ponta da Calçada, por onde se partia para Santo Amaro e para Salvador.


Anunciou, então, a principal programação da noite, conforme proposta do vereador e presidente da Lira, José Luiz da Anunciação Bernardo, acatada pela Câmara dias antes: a levada de dois mastros de madeira esculpidos aos dois extremos da cidade, a marcar as entradas da cidade liberta. Mastros estes que a administração municipal batizara, sabe-se lá porque, de paus cabeludos.


O primeiro pau cabeludo, com seus oito gloriosos metros de cumprimento e quase trinta centímetros de diâmetro, iria para o bairro do Caquende, sob sovacos do prefeito Raimundo Bastos Leite, secretários municipais, vereadores, candidatos e outras autoridades civis, militares e eclesiásticas. De oito a doze nobres abraços disputavam afoitamente um pedaço do grandioso pau, conduzido em ritmo frenético logo atrás da afinada Lira Ceciliana.


Chegando ao bairro em questão por volta das dez e meia da noite, o cortejo cívico deparou com um verdadeiro batalhão caquendense. Hostil. Insatisfeitos com a administração municipal, que chamavam de “República do Copo”, e principalmente com o prefeito, apelidado de “Dinho Farofa” pelos adversários políticos, os moradores ensaiaram uma ruidosa vaia. Alguns aproveitaram para jogar terra e areia nos nobres cidadãos que empunhavam o cívico tronco. E com areia a coisa ficou pior. Nervoso com a recepção, o prefeito mandou que se enfiasse logo a porra do pau cabeludo no buraco a ele destinado, o que foi feito rapidamente, e que se voltasse para pegar o outro mastro, deixado nas escadarias da Câmara. Dito e feito.


De volta à sede do Legislativo municipal, entretanto, a comitiva encontrou o portão de ferro de acesso ao pátio trancado. O funcionário responsável, pouco satisfeito com o salário e o horário da sessão extraordinária, tratou de encerrar o expediente e ir para casa, ninguém sabia onde. Para não deixar o espírito cívico esfriar, a filarmônica continuou tocando, enquanto as pessoas aguardavam uma solução. Alguém propôs que se pulasse a murada e tentasse passar o pau por uma fresta da grade.


Preocupado com os riscos da manobra, um vereador alertou que isto poderia danificar os detalhes entalhados do glorioso mastro. Além disso, havia o perigo do pau ficar entalado, o que poderia inviabilizar completamente a conclusão da operação. Um secretário municipal, particularmente preocupado com a reação do público, sugeriu que se deixasse para levar o outro pau no dia seguinte, mas teve sua proposta prontamente rechaçada pela maioria. Não era possível que todas as autoridades da cidade ficassem impedidas de retirar um tronco das escadarias da Câmara por obra de um único e incompetente funcionário. Nervoso, o prefeito gritava para que o secretário desse um jeito. O secretário olhava em volta para ver algum funcionário a quem retransmitir a ordem. O impasse já durava uma hora e meia quando surgiu um herói anônimo, destes que volta e meia surgem no Brasil quando o êxito de uma expedição cívica está ameaçado.


Diante da possibilidade da Ponta da Calçada e da sua Rua da Feira ficar desprovida do marco guardião, um jovem pulou a grade e, após uma delicada e eficiente manobra, conseguiu enfiar o pau cabeludo pelo arco sobre a grade. Finalmente liberto, o pau varonil pôde ser levado, com rapidez olímpica, sob sovacos transpirantes, ao outro extremo da cidade. As vaias foram novamente inevitáveis e só pararam quando o pau já estava em seu devido lugar, em pé, o prefeito rumara para casa e a lira substituíra os dobrados oficiais por sucessos juninos, antecipando o São João do Recôncavo.


*Jornalista e autor do livro Notícias de uma terra dessemelhante, do qual este texto faz parte


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