Receba nossas atualizações

  • Cidade da Bahia
  • Ícone do Facebook Branco

© 2019 por Escriba Comunicação & Consultoria. Criado com Wix.com

  • Cidade da Bahia

O papel da imprensa


Diogo Tavares*


Chegou aos ouvidos do fundador do finado Jornal da Bahia, João Falcão, que três moças da reportagem andavam com um hábito pouco saudável para a empresa. Ele, naturalmente, quis saber qual era. O informante de plantão contou que elas andavam passando madrugadas na esbórnia, o que era comum entre os quadros da redação. Só que, depois, iam direto para o trabalho, pela manhã. O proprietário também considerou aquilo normal, principalmente naqueles tempos em que ainda imperava o chamado “jornalismo boêmio” em Salvador.


Apesar do empresário já estar ficando impaciente, o relato prosseguiu mais ou menos assim. No caminho para o trabalho, as jovens paravam numa loja da Avenida Sete (Binoca, apurei depois), onde compravam roupas novas e sabonetes. Era o preparativo para o banho, no banheiro da oficina gráfica. O homem olhou o dedo-duro pronto para dizer que aquilo não tinha nada de mais, quando o cidadão completou: “E se enxugam com o papel do jornal”.


Aí o dono da gazeta deu um pulo da cadeira, mandou chamar imediatamente as repórteres e passou um sermão digno de registro histórico. Explicou que aquilo era papel importado do Canadá, que era comprado em dólar, que cada bobina daquelas custava uma fortuna. Disse o valor, devidamente convertido em moeda corrente, e concluiu. “Se vocês querem tomar banho aqui, basta comprar uma toalha. Qualquer paninho por aí custa bem menos do que este papel que vocês andam jogando fora”.


Não me lembrei de imediato desta história na manhã de sábado em que sentei diante do balcão de um boteco na Barra. Olhava distraidamente pela porta, quando passei a observar um homem comprando jornal na banca em frente. Com o matutino na mão, entrou no bar e sentou perto do balcão de forma tão decidida e olhar tão ansioso, que fiquei curioso em saber que notícia estaria procurando.


Poderia, por exemplo, ser um torcedor fanático, ou estar envolvido em alguma ocorrência policial. Decerto não era um leitor comum, pois passou a folhear o diário de forma afoita, quase nervosa. Passou as primeiras páginas, se limitando a ler as manchetes. Poderia ser um empresário envolvido em fraude com a Previdência, pensei. Não era, creio. Passou sem registro pelas páginas de negócios, correu por esportes como um velocista e sequer viu as fotos de segurança.


Jogou o primeiro caderno no balcão. Ah, sim, ele deveria estar interessado em cultura. Poderia ser empresário de algum artista. Não era, creio. Atropelou o roteiro, virou a coluna social como um flash e logo mais um caderno estava no balcão. Depois, no caderno seguinte, passava os olhos pelos títulos com um leve balançar de cabeça com tom de desaprovação. Um a um os cadernos foram folheados e jogados no balcão, onde o diário foi deixado.


Não era possível! Tanto tempo de trabalho, tanto esforço de repórteres, fotógrafos, editores, do pessoal da publicidade, dos anunciantes, dos motoristas, enfim, um processo industrial enorme até o jornal chegar na banca, e o homem não tinha parado para ler um único parágrafo.


Eu ainda tecia pensamentos filosóficos, frustrado com o resultado do meu trabalho, quando o garçom do bar se aproximou olhando interessadamente para o jornal. Enfim, o leitor, o tão precioso leitor, para o qual voltamos nossos esforços, o motivo final de nossas noites mal dormidas e nossos finais de semana passados longe da família! O garçom perguntou se o homem não queria mais o jornal. O homem respondeu que não, que o outro podia pegar.


Então, presenciei uma cena que jamais esquecerei. O garçom abriu cuidadosamente o jornal, seguiu até as paginas centrais. Com uma precisão que eu diria quase cirúrgica, separou uma folha. Meus olhos estavam presos na imagem, quando o homem se abaixou, pegou algo de trás do balcão e jogou sobre o papel. Não notou meu olhar perplexo enquanto enrolava lentamente, em um pacote de papel canadense decorado com letras e fotos, um grande pedaço de carne crua. Como já havia descoberto João Falcão muitos anos antes e eu comprovava ali, nem sempre o papel da imprensa se desenrola da maneira que gostaríamos.


*Crônica publicada primeiramente no jornal Correio da Bahia, em 16/09/2001, ilustração original de Rezende