• Cidade da Bahia

O nascimento da paixão

Ou o caso do rapaz que trouxe para estas terras coisas que a princípio pareceram muito estranhas


Diogo Tavares*


Salvador, 27 de outubro de 1901


A vizinha viu o rapaz saindo de casa, na Rua Portão da Piedade, e pensou, lá com os botões dela, que o moço tinha voltado meio esquisito das Europas. Onde já se viu sair pela cidade, em pleno domingo de outubro, que, portanto, nem perto do Carnaval estava, com as pernas de fora, meias três-quartos e uma camisa de pano listada, com mangas compridas, mais colorida do que estandarte do Divino?


Sem falar naquele sapato estranho e naquela esfera de couro do tamanho de um coco segura debaixo do sovaco. Será que era aquilo que se andava usando na... "Inha, aonde é mesmo que o Zezinho aí do lado foi estudar?", perguntou para a filha, enquanto acompanhava com os olhos o jovem que, a passos firmes, seguia na direção da Avenida Joana Angélica.


É bom que se diga que a tal vizinha não devia ser particularmente enxerida ou preconceituosa. Afinal, tratava-se de uma sociedade provinciana que apenas há alguns meses tinha assistido ao final do século XIX. Pior aconteceu na Alfândega, menos de uma semana antes, quando os fiscais notaram na bagagem aquelas coisas no mínimo incomuns: um negócio de couro costurado em gomos iguais, duas bexigas que aparentemente não eram de carneiro e um bastão de madeira que soprava ar por uma ponta muito fina de metal. Pegaram, apalparam, cheiraram e ouviram as explicações do jovem. Não entenderam muita coisa, mas, afinal, se não era nada conhecido e não constava do regulamento das proibições, tudo bem. Que passasse, pois, a tralha. Devia ser apenas mais uma novidade destes garotos com pais abastados que iam estudar no estrangeiro.


E era. José Ferreira regressava da Inglaterra após concluir o período letivo no Durtford Grammar School. Não aprendeu nada de especial por lá, a não ser um novo jogo. Achou interessante logo que viu. Perguntou sobre as regras e no dia seguinte se apresentou para fazer parte do time do colégio.


Então, lá ia ele, de volta a Salvador, em pleno outubro, marchando pela Joana Angélica. Alguns moleques ameaçavam se juntar à marcha, mas ainda não tinham se definido se era para caçoar ou participar da folia. Preferiam não correr risco de tomar um safanão, pois o rapaz, altivo, não parecia estar ali para brincadeira. Uma distância prudente era a melhor alternativa, e eles se limitaram a acompanhar, mordidos de curiosidade. Ficaram ainda mais curiosos e decidiram aderir à marcha quando os irmãos Mário e Edgard Tapioca se juntara a José Ferreira, cumprimentando o amigo com grande festa. Logo, os três, que já eram cinco ou dez, retomaram o caminho na direção do Campo da Pólvora. Volta e meia paravam para chamar um conhecido e, a cada esquina, multiplicava o séquito de curiosos. José Ferreira aproveitava a caminhada para explicar as regras do tal jogo inventado pelos ingleses.


Quando finalmente chegaram ao Campo da Pólvora, eram dez pretensos jogadores e muito mais do que isto de curiosos. Marcou-se balizas, dividiu-se o grupo em dois times e... Bom.... Cada um chutava para um lado e ninguém parecia saber muito bem o que estava fazendo. Apesar disto, foi paixão ao primeiro chute. Aos poucos, os curiosos começaram a vibrar, atraindo ainda mais pessoas. Alguns esqueceram a visita à comadre, o caruru da sogra e a missa dominical. A bola tomava caminho diferente do pretendido pelo atleta, um pedaço de barro voava alto, mas a audiência aplaudia, ria, fazia festa. Era a torcida. Todos vítimas da mesma paixão súbita e irremediável.


Depois do baba, queriam saber mais sobre aquele negócio. "Zuza, que jogo é esse?", perguntou um conhecido antigo, tornando público o apelido de família do rapaz. Apelido que seria nome no campo. "Eles chamam de football, porque se joga assim"... E quicou a bola na frente, mandando longe com o pé, para festa dos meninos, que correram atrás em bando, disputando aos gritos o privilégio de um chute.


Amigos e companheiros que tinham jogado, outros que tinham assistido ou ouvido falar, não deixaram Zuza em paz enquanto não foram marcado dois outros jogos para os domingos seguintes: o primeiro no Largo de Santana e o outro na Rua Fonte do Boi, onde um dos jogadores, Agenor Albano, provocou o primeiro incidente relacionado ao esporte. Quebrou uma vidraça da própria casa. Pelo menos foi o que alegou para a mãe enfurecida, evitando maiores reações contra o esporte e permitindo que tudo terminasse em paz.


A cada domingo o número de pessoas querendo praticar e assistir ao esporte era maior. Os moleques, em santa engenhosidade, trataram de inventar a bola de meia ou tecido recheada de papel. Assim aprendiam a jogar e jogavam, pois as bolas de borracha ainda demorariam para ser encontradas na cidade e as de couro, importadas, eram privilégio de poucos afortunados.


Quanto a Zuza Ferreira, apaixonado pelo futebol, continuou jogando em cada largo ou terreiro de Salvador. Não consta na história que tenha sido um exímio jogador, mas tinha lugar reservado em todos os times. Trouxera o esporte para a Bahia, ensinara as regras e as características do campo, marcara as primeiras partidas, mas, acima de tudo isso, tinha um mérito que as décadas seguintes confirmariam como infalível para garantir lugar no time: era o dono da bola.


*Trecho do livro "Notícias de uma terra dessemelhante", de 2018



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