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O isolamento e o marechal Martin Cagão



José Fernades*


No inicio do Século XX, a Bahia foi atingida por uma grande epidemia de varíola, que matou cerca de 3 mil pessoas só em Salvador e que se espalhou por várias regiões do estado. Na época, a principal estratégia de combate era isolar os doentes em barracões ou prédios afastados dos centros das cidades para evitar o contágio. Em muitos lugares, os mortos eram sepultados em áreas fora dos cemitérios. Passada a epidemia, muitos desses prédios foram demolidos, outros abandonados, que passaram a serem ocupados por famílias pobres sem teto, mendigos e doentes mentais.


Em Alagoinhas, o prédio do isolamento e também o cemitério ficavam próximos do pequeno sítio do meu avô, Mathias, onde nasci e passei a minha infância. No sítio havia uma pequena sepultura cercada com grades de ferro e uma cruz de cimento pintada de branco de pouco mais de um metro de altura. Já estava lá, quando meu avô comprou o pedaço de terra, onde a maior parte da família passou a morar depois de chegar à cidade fugindo da seca que atingiu o Sertão dos Tocós, na década de 1930.

Era a única sepultura fora do cemitério que ainda restava nas redondezas. As outras covas haviam desaparecido em meio aos laranjais que foram surgindo na região nos anos pós epidemia. Por conta da amizade que mantinha com a família do morto, especialmente com a viúva, meu avô não permitia que a sepultura fosse removida e até ajudava a conservar o lugar, que era visitado periodicamente pela velha senhora, especialmente no Dia de Finados.


O isolamento era um prédio grande, quase todo em ruinas, que me inspirava medo e a todas crianças da vizinhança, não só pela sua aparência, mas também pela agressividade de alguns dos seus moradores, alguns deles doentes mentais ou alcoólatras, que costumavam jogar pedras ou ameaçavam bater nos garotos curiosos que se atreviam a se aproximar do lugar. Mas nem todos eram assim e costumavam circular pela vizinhança em busca de alimentos e bebida.


O marechal Martin era um deles. Um louco manso, que alternava momentos de lucidez e confusão mental. Apesar da idade avançada, ainda era um homem negro forte, que vestia sempre uma farda caqui, semelhante ao uniforme do Exercito, nos primeiros anos da República ou da PM naquela época. Era um dos frequentadores mais assíduos da pequena bodega, onde meu avô vendia, além das frutas colhidas no sítio, também verduras e uma grande variedade de cachaça com ervas, folhas e raízes que ele mesmo preparava e deixava de infusão por longo período.


Meu avô parecia gostar do marechal, conversava com ele, ouvia suas histórias e sempre o presentava com frutas ou um prato de comida. Mas não vendia e nem oferecia bebida para ele e nem para qualquer outro morador do isolamento. “É pra não ter confusão”, costuma repetir. Quando não estava escola, eu passava a maior parte do dia ao lado de meu avô. Gostava de ouvir as suas histórias e ajudá-lo a atender a freguesia da bodega. Numa dessas ocasiões, ele me contou que o marechal havia sido militar na juventude, tendo participado da Guerra de Canudos. “Ele ficou assim depois que voltou da guerra”.


O marechal carregava sempre uma espada de madeira amarrada na cintura, que costuma sacar sempre que se sentia ameaçado ou ofendido por alguém. Quase ninguém acreditava que ele havia sido militar e muito menos que havia lutado numa guerra. E isso o deixa irritado e mais ainda quando algum moleque o chamava de “Marechal Martin Cagão”. Aí coisa desandava. O marechal sacava a espada e partia furioso para cima do sujeito, gritando: “Ajoelha-te bandido, respeita teu superior ou vai morrer agora”. Geralmente, o moleque fugia, o marechal logo se acalmava e seguia seu caminho, altivo, num passo marcado como se estivesse em um desfile militar, sem tirar a mão de sua espada de madeira escura.


Pouco tempo depois da morte de meu avô, a família vendeu o sítio e nos mudamos para outro bairro da cidade. O isolamento foi demolido e nunca mais tive notícias do marechal. Mas nunca o esqueci, nem dos momentos que passei com meu avô. A pandemia parece ter nos aproximado no tempo e na memória.


*José Fernandes é jornalista dos bons tempos; foto da enfermaria do hospital provisório Escola Benjamin Constant, no Rio de Janeiro, em 1918, acervo da Biblioteca Guita e José Mindlin

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