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O império sob censura

Ou o dia em que a ditadura militar resolveu precavidamente e previamente censurar o imperador Dom Pedro I


Diogo Tavares*


Salvador, 6 de setembro de 1972


Que Dom Pedro I era um libertino não havia dúvida. Talvez fosse também um liberal, pensou. Mas aquelas palavras que tinha diante dos olhos, naquele exato momento, eram absurdas ao extremo. Não, absurdos eram aqueles tempos de um modo geral. Na ausência de um conhaque, derramou café quase quente goela a baixo e deu uma olhada em volta, parando no quase repórter de política.


Algumas máquinas estavam suspensas, ocultando rostos, num estranho hábito das redações. Olhou para o foca e pensou que gostaria de estar bem longe, num bar, tomando todas. Faria isto tão logo o jornal do dia seguinte estivesse rodando na oficina, lá em baixo, e tomaria uma ou duas em homenagem ao imperador naquela véspera de 7 de setembro.


Os hábitos festeiros de Dom Pedro I eram famosos e deviam ser amplamente comentados na corte. Sem os apaixonados incentivos monetários do príncipe aos bordéis da época seriam impossíveis, em terras selvagens da colônia, a francesa, a alemã e, melhor que todas, a espanhola, com seus seios fartos e aconchegantes. Era o primórdio da abertura econômica e da globalização. Enfim, mesmo que não fosse exatamente um nacionalista, ao que consta Pedro acabou tirando a espada da bainha e deixando claro que, de Portugal, só queria vinho do porto. Na redação do jornal baiano, ele pensou um pouco nisso, com vontade de tirar a caneta Bic do bolso da camisa e bradar: “Fodam-se!” Depois sair dali e não voltar nunca mais.


Não gritou. Não saiu. Releu o curioso comunicado mandado ao jornal naquele dia pela Superintendência da Polícia Federal, que acabara de identificar no primeiro imperador brasileiro um perigoso subversivo, uma ameaça ao sistema: “Está proibida a publicação do decreto de Dom Pedro I, datado do século passado, abolindo a censura no Brasil. Também está proibido qualquer comentário a respeito”.


Era apenas mais um dia na imprensa sob censura. Acabou a noite bêbado, num brega do Pelourinho, como convinha a um recém-monarquista convicto naqueles tempos.


*Do livro Notícias de uma terra dessemelhante