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O Dodge de Paulo Neves


Por Diogo Tavares


A carona tinha caído do céu, pensou o redator, à saída do finado Jornal da Bahia. Afinal, o fotógrafo Paulo Neves ia exatamente da Barros Reis para a casa de shows New Fred’s, em Amaralina, a poucos metros de onde ele morava. Agradeceu a oferta e tratou de ocupar o banco do carona. O motor roncou como um velho marinheiro, sacudindo de um lado para outro os dois ocupantes. “Você está com sorte”, disse o motorista. “Normalmente o carro não pega na primeira e a gente precisa dar uma empurradinha”.


É claro que o redator não pensou naquele momento que a oferta de carona fosse para garantir o empurrão. Na verdade, pensou que fosse uma brincadeira do amigo, habituado a fazer troça até na frente de delegado durante a ronda da reportagem policial. Ao lembrar do caso o redator riu sozinho, enquanto fotógrafo se mantinha sério ao volante do automóvel. Aliás, um raro exemplar produzido pela indústria automotiva que merece maiores explicações.


Como no caso da Arca de Noé, não há documentação histórica que comprove a existência do tal veículo. Há quem acredite que não passava de um Corcel. Outros juram que era um dinossauro, aproveitado anos depois por Spielberg. Também houve quem afirmasse ser um mero “delirium tremens”. Testemunhas idôneas, entretanto, garantem que se tratava de um Dodge Dart 72, mais amarelo que cocô de bebê recém-nascido, tornado conversível por obra e graça de algum maluco (não necessariamente o proprietário à época). A despeito de divergências de cor e ano, podemos ter como certo que era um “Dodjão”, conversível a pulso, na definição da comadre Lucinha uma verdadeira banheira.


Bom, lá estava o redator afundado no banco de carona, buscando empurrar forro a dentro um pedaço da espuma do banco que teimava em atacar a orelha dele. Por sorte não era alérgico a poeira. O motorista explicou que trocaria o estofado do carro em breve, assim que passasse o período de chuvas, pois o carro não tinha capota. O carona, talvez influenciado pelas palavras do amigo, sentiu um certo cheiro de mofo enquanto olhava para o céu a procura de nuvens. Felizmente, o tempo estava firme.


Foi aí que o redator notou que, apesar de terem saído há um bom tempo da frente do Jornal da Bahia, ainda não haviam chegado no final da rua. Olhou para o velocímetro, onde o ponteiro, colado no zero, não revelava qualquer sinal de vida. Tentou fazer um cálculo e chegou à conclusão de que o veículo se movia mais ou menos a vinte quilômetros por hora. E foi diminuindo aos poucos até parar, como um maratonista exaurido, na sinaleira fechada. O fotógrafo devia ter muita estima ao carro, já naquela época uma raridade quase arqueológica, e provavelmente não estava querendo forçar o motor antes de esquentar, pensou o carona. Pensou muitas outras coisas até o sinal abrir e o motorista recolocar o veículo lentamente a caminho.


Após muitos minutos e poucos quilômetros o redator começou a ficar incomodado. Não era possível aquilo. O carro não passava de quarenta quilômetros por hora, mesmo assim na descida. Atrás, outros motoristas businavam impacientes, os ônibus passavam com janelas cheias de pessoas olhando e o motorista continuava impassível, olhar fixo na rua à frente. Se coubesse, o carona teria se escondido sob o forro rasgado do banco. Talvez o motorista fosse inseguro. Não, também não parecia ser isso, mas carona não podia reclamar de nada. Carona é como cavalo dado, é pegar ou largar. E ele já estava dentro.


Cerca de uma hora depois, o carro chegava, no mesmo ritmo, ao bairro de Amaralina. Não resistindo mais, o redator resolveu perguntar com toda educação possível se o automóvel estava com algum problema de motor. “Não, o motor está ótimo”, respondeu o motorista. Em seguida completou: “É que o carro não tem freio”.


*Ilustração de Flávio Luiz/reprodução