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O dia em que Nego Liu acabou no caixão



Nestes tempos que vivemos, como poucas vezes na história, a morte passou a ocupar grande espaço na nossa vida. Nos programas jornalísticos, em todo momento, alguém nos lembra que ela está ali perto, aguardando a gente, esperando apenas por um vacilo. Pois estes tempos são bons também para pensar no passado e relembrar histórias, como o caso de Nego Liu. Tem relação, de certa forma, com morte. Mas sem risco de perder a vida, pelo menos enquanto "morrer de rir" for mera linguagem figurada. Mas vamos aos fatos.


Alguns maridos traem a mulher por fraqueza. Outros por força das circunstâncias. Mas há aqueles que são descarados mesmo e não podem ficar longe da buraqueira. Esta é uma daquelas filosofias que o botequim ensina e que os exemplos comprovam. Pra que complicar? O fato é que Nego Liu, chamado pelos amigos de “Dentinho”, se encaixava exatamente no terceiro tipo de infiel. Daqueles que levam logo pra casa da nova namorada sabonete, shampoo, pasta de dente, colônia e desodorante das mesmas marcas que usa na residência oficial. Um conservador, digamos assim, em relação a produtos e hábitos higiênicos, embora as más línguas digam que a patroa é que tinha um olfato de primeira.


Naquele dia Nego Liu apareceu todo sorrisos, com os dentes proeminentes brilhantes como nunca, o que fez com que os amigos desconfiassem de que ele andava novamente transando com a dentista. Ele negou, garantindo que foi justamente durante o tal namoro que relaxou no tratamento dentário. “Eu só podia marcar horário para três consultas por semana. Não sobrava tempo para os dentes”, explicava aos incautos.


O negócio é que a alegria tinha lá seus motivos, conforme explicou Nego Liu. Semanas antes, ele conhecera uma bela morena numa lanchonete e, como bom gavião, caíra em cima. Em pouco tempo já sabia que a moça era solteira, tinha terminado uma relação de anos, trabalhava como gerente de uma loja e gostava muito de cinema. Sugeriu um filminho, anotou o telefone e ficou de ligar.


No primeiro encontro tudo correu conforme o previsto por “Dentinho”, até a hora do vamos ver. Foi aí que a coisa complicou. Quando ele tentou levar a moça para um “abatedouro”, como ele chamava os hotéis no Centro da cidade, nada feito. Ela saiu escorregando como peixe ensaboado. Beijinho, tudo bem. Um amasso educado, também. Mas era só. Beijinho, beijinho e boa noite. A coisa continuou assim durante vários encontros, apesar do empenho religioso de Nego Liu em convencer a moça dos encantos da buraqueira.


O homem já estava perdendo as esperanças e comprometendo o orçamento com tantas entradas de cinema, quando a moça reascendeu a chama. Tudo bem, ela disse. Se para ele sexo era importante no relacionamento, ela topava. Mas tinha uma exigência: ela escolheria a hora e o local. Nego Liu, que nunca se preocupou com esse tipo de detalhe, topou na hora.


Nos dias seguintes Nego Liu ficou tomado por ansiedade. Bastava o telefone tocar no trabalho, para ele correr pra atender, mesmo que tivesse que deixar o chefe falando sozinho. Finalmente a moça marcou o dia e a forma de capitulação. O dia D seria uma sexta-feira. Ele teria que encontrá-la na loja onde ela trabalhava na hora de fechar.


Então lá foi Nego Liu, arrumado que nem coroinha em dia de procissão, mais perfumado do que penteadeira de mulher dama, pronto para o tão sonhado encontro. Mal entrou na loja, ela foi fechar a porta. “Enfim sós”, disse a descarada. Ele a agarrou na hora, mas ela se afastou. “Não, aqui não”.


“Como assim, aqui não?”


Só aí Nego Liu lembrou o tipo de estabelecimento que ela gerenciava. A moça então apontou para um canto da loja. "Aqui não, mas ali”, decretou. Nego Liu olhou para o caixão entreaberto, forrado de roxo e com alças douradas. Uma beleza de obra de marcenaria exposta para os clientes da funerária.


“Ali?”, perguntou Nego Liu, para se certificar.


Ela acenou com a cabeça e o puxou pelo braço. Nego Liu deu uma boa olhada para garantir que o produto era zero quilômetro e não tinha um passageiro definitivo. Afinal, não havia espaço ou clima para um triângulo amoroso. Conferido o ninho de amor, tratou de ocupar o posto. Além de inventar o test drive de caixão, Nego Liu ganhou dos amigos, antecipadamente, uma proposta de epígrafe: “Aqui está enterrado Nego Liu. Desta vez só”.

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