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O dia em que Gandhy desembarcou em Salvador

Ou a história dos estivadores que comprovaram que em momentos de crise a criatividade faz a diferença



Diogo Tavares*


Salvador, 18 de fevereiro de 1949


O trabalho na estiva andava raro naqueles dias. O clima de pós-guerra mantinha o comércio mundial em ritmo lento e, para complicar, havia uma greve nos portos ingleses, reduzindo consideravelmente o movimento de navios para o mundo todo. Como faziam todos os dias, os estivadores chegaram cedo ao porto, naquela segunda-feira, a procura de trabalho. Quando havia navio, era um dinheiro bom, que colocava a categoria no topo das profissões de gente sem estudo na primeira metade do século. Sem carga pra movimentar, entretanto, a coisa ficava mal. E mal estava. Não havia qualquer notícia de navio chegando.


Para passar o tempo, alguns estivadores jogavam dominó e conversavam. Até que um deles lembrou que já estava na semana do Carnaval. Sem dinheiro, disse, não ia dar pra botar o bloco Comendo Coentrona rua. Quer dizer, dar até dava, mas depois de ganhar quatro anos seguidos do rival Rosa do Adro não valia a pena o vexame da derrota certa. Todos lembravam do ano anterior, quando o bloco saíra um luxo. Todo mundo com macacão branco de brim cetim, gola e punho de laquê azul, basqueteiras brancas com frisos azuis, vermelhos e brancos, compradas na Casa Clark, e boné, também azul, vermelho e branco.


"Pra passar vergonha, o Comendo Coentronão sai", opinou, com autoridade, Dino Pinto Preto, recebendo a imediata concordância verbal ou gestual dos companheiros. Dino era o maior criador de apelidos do grupo. E apelido era o que não faltava. Tinha Vavá Madeira, Antônio Coruja, Zóião, Soldado, Carequinha, Domi, Mica Fialho, Caboclo, Coice de Burro, Bigode de Arraia, Pé-de-alho, Nonô, Dudu Calango, Máximo Quadrado, Nélson Lobsomem, Domingos Cara Feia, Aloísio Gaiolão, Cândido Elefante, Manoel Guarda-sol, Jaime Bexiguinha e Hamilton Bebê de Madame. Sem apelido resistiam Bráulio, Hilário, Amaro, Elias, Wilson e Assis.


Então estava resolvido que o Comendo Coentronão ia sair. O nome do bloco tinha sido dado involuntariamente por Domingos Cara Feia. Quando bebia umas cachaças a mais, o que não era raro, dizia pra todo mundo que estava comendo coentro.


No início da tarde ninguém mais tinha esperança de arranjar trabalho naquele dia. Voltaram a falar do Carnaval. Se não tinha dinheiro pra botar o Comendo Coentro na rua, também não era negócio colocar os outros blocos vitoriosos do pessoal da estiva, como o Brinca quem Pode ou o Robalo, que derrotara durante anos o rival Leão de Ouro, formado pelo pessoal das docas. Podiam até formar o Robalinho ou o Troça dos Estivadores, onde saiam vestidos de mulher. Mulheres bem fortes, por sinal. Bastava pedir algumas roupas para as moças do Julião, meretrício muito considerado e apreciado da turma. Alguns tinham até nêga fixa lá. Bráulio tinha lá a Delza. Mica tinha lá a Valdelice. Domi tinha a Rosa. Ou seria Maria?


Vavá Madeira, sempre animado para uma farra, tirou o charuto da boca, cuspiu um pouco de fumo, e sugeriu, então, que fizessem um novo bloco, algo só de brincadeira, que desse pra sair sem precisar de muito dinheiro. Dinheiro, aliás, que ninguém tinha. Todos concordaram imediatamente. Só faltava dar o nome do novo bloco. Todo mundo começou a pensar, mas nada parecia ser original o suficiente.


Dia passado na beira do cais sem trabalho, um grupo decidiu subir a Ladeira do Caminho, tomar uma caninha e jogar uma porrinha sob a mangueira na frente do Curtume Vitória. Era o principal ponto de encontro do pessoal. E foi debaixo da mangueira que Antônio Coruja lembrou do filme Gungadim, que tinha visto uns dias antes num cinema de Feira de Santana. A história, contou, acontecia na Índia, tinha lá os hindus e os lanceiros. Poderiam ser estas as fantasias do novo bloco. Sugeriu que se chamasse Filhos de Gungadim.


Vavá Madeira desta vez deixou o charuto cair e disse com convicção: "É isso! Mas acho melhor chamar o bloco de Filhos de Gandhy!" Todos concordaram logo, pois estava na memória deles o nome do líder pacifista indiano, assassinado alguns meses antes. Não conheciam muito mais da história, mas para bloco de Carnaval de uma categoria tradicionalmente politizada e contestadora estava ótimo.


No dia seguinte, Dino Pinto Preto saiu avisando a todo mundo no porto sobre o bloco e convocando os foliões para uma reunião debaixo da mangueira na quarta-feira anterior ao Carnaval. No dia combinado, Vavá Madeira apareceu com uma revista onde havia a foto de um hindu. Não poderia ser melhor para a situação financeira da galera: bastava um lençol e uma toalha brancos, amarrados com corda. Na mesma hora foi feita uma vaquinha, com cada um dando entre cinco e dez mil réis. Para economizar ainda mais, alguns, como Bráulio, Soldado, Zóião, Domi e Mica, trataram de pegar lençóis e toalhas emprestados das raparigas do Julião. Para calçar, também optaram pela solução mais barata: tamancas "malandrinhas".


As outras tarefas foram divididas sob a coordenação do presidente recém-aclamado do bloco, Vavá Madeira, e do vice-presidente e tesoureiro, Antônio Coruja, que anotava todas as contribuições e decisões em um caderno. Nelson Lobsomem, o mais novo deles, tratou de pintar o estandarte, desenhado por Elias. Carequinha arranjou um agogô, feito por João Ferreiro na Ladeira do Taboão. Zóião e Nonô improvisaram atabaques com barricas de chá-mate e pedaços de couro de jibóia. Enquanto isso, Domi correu para registrar o bloco como entidade carnavalesca.


Muitos deles, entretanto, ficaram com receio de sair no bloco. Estivador já tinha fama de comunista por causa dos movimentos por melhores pagamentos e a polícia podia achar provocação aquela homenagem a um líder revolucionário indiano recém-assassinado. Como precaução, Aloísio Gaiolão procurou o presidente do Sindicato dos Estivadores, Deoclécio dos Santos. Apesar de concordar que aquele nome de bloco não era muito prudente, o sindicalista ajudou como pôde. Ou seja: colocou o advogado da entidade, Edgar Mata, de sobreaviso para o caso de ter que tirar alguns estivadores foliões da cadeia durante o Carnaval.


As argumentações pró e contra ao bloco prosseguiram nos dias seguintes. Alguns, como Vavá Madeira, não viam motivos para tanta preocupação. Afinal, Gandhy era um pacifista. Outros, como Soldado, estavam dispostos a sair na porrada se a polícia se metesse a besta. Para evitar maiores problemas, ficou terminantemente proibido, sob pena de expulsão, bebida e mulher no bloco. O argumento era muito claro: a proposta era paz e onde há mulher e bebida há confusão. Para garantir esta determinação, foi decidido que haveria um cordão em volta do bloco e foi destacado um grupo para fazer este isolamento, além de ficar de olho na polícia.


Os últimos instrumentos só ficaram prontos na véspera do desfile. Tudo arranjado em quatro dias. Finalmente, no domingo de Carnaval, os foliões se reuniram sob a mangueira e saíram, em fila indiana, acompanhados de longe pelas mulheres do Julião. Eram apenas cerca de 30 componentes. Na frente, na corda, foi destacada uma comissão de peso: Domingos Cara Feia e Cândido Elefante, com seus quase 200 quilos. Também ficaram na corda Panguara, Máximo Quadrado e Aloísio Gaiolão, que era responsável ainda por traçar o itinerário. Do Julião, o bloco seguiu para a Igreja de Santa Luzia, pedindo proteção e bênção à padroeira.


Depois, tomou o rumo da Ladeira do Caminho, onde havia um caminhão com pessoas distribuindo vassouras. Era campanha de Jânio Quadros, que prometia varrer os problemas do país. As vassouras, então, foram incorporadas à fantasia. De lá, o grupo subiu para o Pelourinho, sendo muito aplaudido ao passar pelo clube Barão do Desterro. Na passagem, Dino Pinto Preto comprou, por 20 mil réis, o atabaque de um menino. Seguiram cantando principalmente "Entra em beco, sai em beco" e "Ô-fila-la-ê-ô", passando pela Praça da Sé, Praça Municipal, Rua Carlos Gomes, Campo Grande, Avenida Sete, Baixa dos Sapateiros, Fonte Nova, Tororó e Fazenda Garcia, dando uma parada no Beco do Cirilo para comer uma bacalhoada feita pelo companheiro de estiva Marcelino. Na passagem pelos clubes Fantoches da Euterpe, Cruz Vermelha e Inocentes em Progresso, o Filhos de Gandhy foi calorosamente aplaudido, ofuscando o brilho das grandes entidades carnavalescas da época, como o Deixa a Vida Quelé, o Nega Maluca, o Vai Levando, o Filhos do Mar, o Filhos do Fogoe o Filhos do Porto, formado por portuários.


O domingo foi um sucesso, sem qualquer confusão com polícia ou outros foliões. Diante disto, o bloco ganhou força e saiu com cerca de 70 componentes na terça-feira. Além da adesão dos estivadores, o grupo ganhou integrantes de outras categorias profissionais, como tipográficos, alfaiates, pedreiros e comerciários. Desta vez, a caminhada se estendeu ao Uruguai, Largo do Tanque e Liberdade. Nos anos seguintes, seriam incluídos no roteiro a Igreja do Bonfim e o Terreiro do Gantois, com a escolha de Mãe Menininha como madrinha. Também seriam introduzidos os trabalhos do candomblé para garantir paz nos caminhos. O Gandhy ainda incluiria no trajeto a casa da professora Iazinha, no Retiro, em agradecimento a ela ter bordado o estandarte do bloco.


Após várias mudanças de sede, que incluíram a escola de dança Iaiá, no Pelourinho, espaço também utilizado para as aulas de capoeira angola do Mestre Pastinha, o grupo entrou em decadência, deixou de pagar compromissos e acabou ficando na rua, com troféus, alegorias e documentos perdidos para sempre. Parecia ser o fim do Filhos de Gandhy, que não desfilou durante três anos, de 1971 a 1973. Foi quando uma campanha da imprensa, liderada pelo radialista Gerson Macedo, começou a pedir a volta do bloco. Antigos componentes foram procurados e o bloco ganhou um presidente de prestígio: Camafeu de Oxóssi. A partir daí o Gandhy não parou de crescer. Aquele primeiro Carnaval, entretanto, ficariam sempre guardado com alegria na memória daqueles homens da estiva. Só não teriam saudades dos tamancos, que torturaram os pés de todos. Depois daquele primeiro ano, aliás, "malandrinha" nunca mais!


*Do livro "Notícias de uma terra dessemelhante", detalhe da ilustração de Flávio Luiz em publicação do texto no Correio da Bahia