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O capitão dos navios negreiros e o Senhor do Bonfim



Diogo Tavares*


Reuniu os amigos e devotos para receber a imagem que havia encomendado, réplica perfeita de outra que ele reverenciava fervorosamente na cidade portuguesa de Setúbal. O objetivo era levar a escultura sacra, em cortejo, até a Igreja da Penha, em Itapagipe, onde ficaria até a conclusão da construção de um novo templo, este sim dedicado ao personagem divino retratado, nada menos do que o próprio Jesus, o Senhor do Bonfim.


Enquanto aguardava o desembarque da imagem de 1,06 metro, feita em cedro e trabalhada em ouro e prata, o capitão Teodósio Rodrigues de Farias, oficial da Armada Portuguesa e proprietário de três navios negreiros, lembrava de quando fez a promessa. Naquele dia o céu escurecera quase como se fosse noite, o vento obrigara a deitar as velas da embarcação e as vagas varreram o convés do barco, reduzido a uma casquinha de madeira ao sabor das forças da natureza na imensidão do Oceano Atlântico.


No momento de desespero, orou para o Senhor do Bonfim e para Nossa Senhora da Guia, prometendo que, caso chegasse vivo à Bahia, ergueria uma igreja e encomendaria uma imagem à semelhança da que conhecia em Setúbal. A salvo em terá firme, buscou cumprir a promessa. Pediu a autorização da Sé para erguer uma igreja no alto de uma colina e para fundar uma nova irmandade em louvor ao Senhor do Bonfim. Foi autorizado a realizar a construção.


Assim, após a imagem desembarcar, naquele dia 18 de abril de 1745, ela foi conduzida em procissão até a Igreja da Penha, onde permaneceria durante nove anos. Em 1754, com a conclusão da Igreja do Bonfim, ela seria transportada, em procissão grandiosa, até a sua morada definitiva.


Cumprindo sua vontade, ao morrer Teodósio Rodrigues de Farias foi enterrado na Igreja do Bonfim, num túmulo situado entre a capela-mor e a nave principal. Ele também dá nome a uma rua que começa ao lado esquerdo da Basílica do Bonfim e segue até a confluência das ruas Baden Powell e dos Namorados. Apesar do reconhecimento, o capitão morreria sem saber que ajudara de outra forma a dar o atual formato da homenagem ao Senhor do Bonfim.


Ao longo dos anos, antecedendo à celebração dominical do Senhor do Bonfim, criou-se o hábito de fazer uma boa faxina na igreja. Para o serviço pesado, é claro, eram mandados os escravos.


É aqui que a história do pioneiro da devoção do Senhor do Bonfim nas terras do Novo Mundo encontra muitos outros personagens anônimos, ou descendentes deles, que também enfrentaram medo e desespero no grande oceano e pediram proteção divina para sobreviver. Nos porões de navios como os que o capitão possuía os negros trouxeram a tradição dos ancestrais, o axé, a fé nos orixás. Animados pelo misticismo da lavagem da igreja, reconheceram no filho de Deus e no sincretismo a figura de Oxalá, aproveitando o embalo da labuta forçada para fazer a sua homenagem, ao som dos atabaques, à dança ritual, ao tempo em que os orixás tomavam o corpo dos homens como cavalos.


Aquele ritual, geralmente na quinta-feira que antecedia a celebração de domingo, chamou a atenção e gerou o repúdio da Igreja Católica. Para colocar fim naquela festa pagã, não apenas a lavagem foi suspensa, mas a porta de igreja passou a ficar fechada para impedir o acesso do povo dos terreiros.


No entanto o hábito já estava formado e não seria uma porta fechada que impediria a homenagem a Oxalá. Assim, a “lavagem” prosseguiu do lado de fora, nas escadarias e no adro, onde até hoje a água perfumada de alfazema nos lembra uma história de fé que atravessou os séculos e que é maior do que os personagens que a fizeram.


*Diogo Tavares é jornalista e autor de livros como "Notícias de uma terra dessemelhante" e "O miladre de Dom Amoroso"