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O ano que teve dois carnavais

Ou o atestado de que os da terra são ricos em argumentos e ágeis em organização quando a finalidade é fazer uma boa festa

*Diogo Tavares


Salvador, 1914


Seguindo o trilho do bonde, da Vitória à Praça da Sé, a carreata, ou o corso, era o centro das atenções da cidade. Jovens fantasiados com máscaras cantavam, enquanto serpentinas voavam das janelas dos sobrados. Dividido em três grandes grupos, que representavam os clubes Fantoches da Euterpe, Inocentes em Progresso e Cruz Vermelha, o desfile angariava novos adeptos durante o caminho e a animação dos foliões ganhava combustível extra com o lança-perfume, liberado e amplamente utilizado.


Depois, à noite, a festa continuava nos teatros e clubes, que disputavam os melhores músicos da cidade para embalar as marchinhas da moda. Assim era um Carnaval animado em Salvador no início do Século. O de 1914 não foi. Não havia um motivo único e preciso para o desânimo, mas uma série de coisas e um clima geral de desencanto. O principal motivo parecia ser de ordem climática, pois vários meses seguidos de chuvas provocaram muitos estragos e um número grande de vítimas em todo o Recôncavo naquele início de ano. Além disso, havia tensão política e preocupação com os acontecimentos na Europa que resultariam na Primeira Guerra Mundial. Nada justificável, afirmavam em coro os foliões de carteirinha, na esperança de detonar a festa. Mas a reação era fraca. Não adiantou nem mesmo a convocação da velha guarda do Fantoches da Euterpe: "Evoé, Evoé, Evoé! Por Momo! Pela Folia!"


Era preciso que a sociedade civil soteropolitana se organizasse para defender o Carnaval daquele inimigo invisível. Logo após o início desanimado, fez-se uma reunião de emergência na Sociedade Euterpe e programou-se uma grande manifestação cívico-momesca para a terça-feira de Carnaval. Nunca se viu tanto automóvel junto na cidade até então, afirmou o cronista da época Antônio Vianna. O povo aderiu em massa, seguindo os estandartes dos clubes em defesa da folia.


O sucesso da manifestação não apagou a sensação de frustração com o Carnaval daquele ano. Era preciso fazer um outro Carnaval, pois aquele não tinha valido, sugeriu um herói anônimo. Acatada a proposta, faltava definir a data.


"O mais breve possível", sugeriu alguém.


"Logo depois da Quaresma", concluiu outro.


"Como a micareme francesa, no domingo de Páscoa", definiu um terceiro, dando o nome da festa.


A igreja protestou. Afinal, que história era aquela de fazer uma festa pagã na Páscoa? Os defensores da folia, cheios de argumentos, contra-atacaram: "A França não é um país católico?" Como, além de católica, a França exercia extrema influência sobre a sociedade brasileira naquele início de século, os argumentos a favor venceram e conquistaram o estratégico apoio dos comerciantes. Desde que a festa fosse após a Quaresma.


Trabalhou-se silenciosamente, mas com afinco, nos quarenta dias que separam a Quarta-feira de Cinzas da Páscoa. Trancados nos barracões dos clubes, exércitos de artesãos e costureiras refizeram em tempo recorde todas as fantasias e adereços para o novo reinado de Momo.


Finalmente, no domingo de Páscoa, o povo teve seu merecido carnaval. Aliás, sua micareme, que aportuguesada e provavelmente misturada com a palavra careta, virou micareta. Nas décadas seguintes, em função do crescimento do Carnaval, a micareta deixou de ser realizada em Salvador, mas conquistou o interior da Bahia. Depois, outros estados e até países conheceram o gosto desta festa. Definitivamente, estava institucionalizado o Carnaval fora de época após aquela Páscoa de 1914, o ano em que Salvador teve dois carnavais.


*Do livro "Notícias de uma terra dessemelhante" (2018)