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Montagem baiana relembra a trágica história dos manicômios


A expressão “trem de doido” nasceu de forma literal por causa dos vagões de cargas abarrotados de gente que chegavam à bucólica cidade serrana de Barbacena, em Minas Gerais, durante boa parte do século passado. Implantada em 1903, a Colônia de Barbacena tinha capacidade para cerca de 200 leitos, mas chegou a abrigar mais de 5 mil “pacientes” vindos de várias partes do Brasil e amontoados em 16 pavilhões independentes, um verdadeiro depósito de gente, o maior campo de confinamento manicomial do país. Reproduziria em larga escala um tipo de destinação e uma forma de tratamento praticados também em unidades como o Hospício Dom Pedro II, no Rio, o Hospital Psiquiátrico do Juqueri, em São Paulo, e as colônias Juliano Moreira, no Rio e em Salvador.


Base para a montagem teatral baiana “Holocausto Brasileiro – Prontuário da Razão Degenerada”, em cartaz de 16 a 31 de outubro na Casa Preta (Rua Areal de Cima, 40 – Dois de Julho), a história da Colônia de Barbacena foi registrada no livro “Holocausto Brasileiro – Vida, genocídio e 60 mil mortes no maior hospício do Brasil”, escrito pela jornalista Daniela Arbex e publicado em 2013 pela Geração Editorial. Conforme a autora, até os anos 80, quando foi desativada gradativamente, a colônia foi o destino, muitas vezes final, para andarilhos, moradores de ruas, pedintes, alcoólatras, viciados em drogas, “pervertidos”, homossexuais, prostitutas e portadores de qualquer tipo aparente de deficiência física ou mental, entre outros indesejados na vida comunitária. Sete em cada dez pacientes não tinham sequer um diagnóstico de doença mental.


“Quando chegavam ao hospital, as pessoas eram separadas por sexo, idade e características físicas. Eram obrigados a entregar seus pertences, mesmo que dispusessem do mínimo, inclusive roupas e sapatos. (…) Todos passavam pelo banho coletivo, muitas vezes gelado. Os homens tinham o cabelo raspado de maneira semelhante à dos prisioneiros de guerra”.

Daniela Arbex, autora do livro “Holocausto Brasileiro”


Os internos da colônia viviam em condições sub-humanas, sujeitos à fome, ao frio e à falta de higiene e saneamento, dormindo amontoados sobre pedaços de papelão ou “camas de capim”, nus ou com roupas esfarrapadas e encardidas, inclusive muitas crianças, nascidas do relacionamento entre internos ou de estupros, o que era comum. Injeções tranquilizantes, espancamentos e eletrochoques eram as formas mais usuais de tratamento. Muitos dos mais de 60 mil mortos foram enterrados em covas simples, como indigentes, e pelo menos 1.823 corpos de pacientes falecidos foram vendidos para estudos em faculdades de medicina e laboratórios, prática que teria rendido, em valores corrigidos, cerca de R$ 600 mil.


O cheiro deste lugar é indescritível. É o cheiro de suor, de fezes, de sofrimento, de gente amontoada, de falta de higiene”.

Helvécio Ratton, cineasta e diretor de “Em nome da razão”


Neste cenário de horror, vale destacar – e nisto a montagem baiana de “Holocausto Brasileiro” é particularmente oportuna – que a grande maioria dos pacientes da Colônia de Barbacena era de negros. Isso mostra um corte da sociedade em que a cor da pele, a pobreza e a transgressão dos padrões de comportamento podiam levar a uma pena sumária de encarceramento. Embora pouco documentado, inclusive pela proibição do acesso de jornalistas à colônia durante o período, o local também teria sido o destino de inimigos do Regime Militar.


“Não sei por que me prenderam. Depois que perdi meu emprego, tudo se descontrolou. Da cadeia, me mandaram para o hospital, onde eu ficava pelado, embora houvesse muita roupa na lavanderia. Se existe inferno, a colônia era esse lugar”.

Antônio Gomes da Silva, ex-interno


Com 16 pavilhões para grupos com perfis diferentes, como “Zoroastro Passos", para mulheres indigentes; "Antônio Carlos", para homens indigentes; "Afonso Pena"; "Milton Campos"; "Rodrigues Caldas" e "Júlio Moura”, buscando manter trancados os mais violentos, a colônia se tornou conhecida também como a “Cidade dos Loucos”. Começou a ser edificada em terras da Fazenda da Caveira com o propósito de se tornar um hospital para tratamento de tuberculosos, pois acreditava-se que o clima serrano favorecia o tratamento. Com a finalidade alterada, se tornou o Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena e ganhou inclusive um cemitério, o “Cemitério da Paz”, destino final de muitos internos.


"A gente sofria muito. Os pacientes ficavam nas celas, que tinham até rato. Tinha aquelas injeções grossas e a gente ficava impregnado (sob efeito de drogas). A gente não saía, ficava só lá no pátio. Tinha também os choques.”

Elza Campos, ex-interna entrevistada pelo jornal O Globo em 2010


Com o aumento descontrolado de internações através do Século XX, quando chegou a ser hospital de referência em psiquiatria, a colônia passou a sofrer constante degradação. Os recursos não cresciam na medida do necessário, e a manutenção e alimentação dos internos era insuficiente. Na parte de saneamento, um canal servia para o escoamento de urina e fezes e ao mesmo tempo era utilizado pelos pacientes para beber água. Banho era coisa rara e nos invernos rigorosos da Serra da Mantiqueira os internos se juntavam em grupos para dormir agarrados, buscando aquecer uns aos outros. Nem sempre a prática era suficiente. Apesar da falta de higiene e de saneamento, o frio seria a principal causa de mortes.


“Eu gastei quatro semanas indo a pé de Barbacena até Belo Horizonte, escondendo no mato. (…) Bebi da minha urina para não morrer de sede. Se eu não tivesse fugido, hoje não estaria aqui”.

Pedro “Perereca” Paulo Mendes, entrevistado aos 67 anos, em 2018, pelo jornal local Vila de Utopia, que tinha 24 anos quando viveu quatro meses na colônia


Como a maioria dois pacientes vinha de longe, principalmente dos estados do Rio e São Paulo, o trem era o meio de transporte mais utilizado. Eles chegavam em vagões de carga trancados ou de passageiros modificados, com a retirada dos bancos e a colocação de grades nas janelas. Um dos primeiros a utilizar a expressão “trem de doidos” teria sido o escritor Guimarães Rosa, que trabalhou durante um curto período, em 1933, como médico na colônia. Anos mais tarde, em 1962, ele publicaria o conto “Sorôco, sua mãe, sua ficha”, inspirado naquela experiência.


“Não era um vagão comum de passageiros (…), num dos cômodos as janelas eram cercadas de grades, feito as de cadeia, para os presos.(…) Ia servir para levar duas mulheres, para longe, para sempre”.

Guimarães Rosa, em 1962, no conto “Sorôco, sua mãe, sua ficha”


Duas reportagens, realizadas no período de maior degradação da colônia e separadas pela censura imposta pelo regime militar, ajudaram a tirar a história da “Cidade dos Loucos” das sobras. Em 1961, antes dos militares chegarem ao poder, o fotógrafo Luiz Alfredo, do Jornal O Cruzeiro, retratou a realidade no interior dos muros da colônia. Já em 1979, na “abertura” democrática, o jornalista Hiram Firmino publicaria uma série de reportagens intitulada "Nos porões da loucura". O assunto também renderia o importante documentário “Em nome da razão”, do cineasta Helvécio Ratton. A denúncia das condições do local ganharia força após uma visita do psiquiatra italiano Franco Basaglia, em 1979, quando foi comparado a um campo de concentração nazista. Iniciou-se uma campanha pelo fechamento da colônia, o que só ocorreria anos depois.


Eles dormiam juntos em salas grandes sem cama. Todos tinham que se deitar sobre o chão do cômodo, que era coberto apenas por capim. Acordavam por volta das 5h da manhã e eram enviados para os pátios, onde ficavam até 19h, todos os dias. (…) Barbacena é uma cidade muita fria. Até hoje tem temperatura muito baixa para os padrões brasileiros. Pessoas eram mantidas nuas nos pátios em total ociosidade. (...) Nus no corpo e na identidade, a humanidade sequestrada, homens, mulheres e até mesmo crianças (…) comiam ratos e fezes, bebiam esgoto ou urina, dormiam sobre capim, eram espancados e violentados até a morte.”

Daniela Arbex, autora do livro “Holocausto Brasileiro”


Em 1996, um dos pavilhões da colônia foi restaurado e reaberto, desta vez transformado no "Museu da Loucura". Foi o torreão do hospital, construído em 1922, uma importante construção arquitetônica considerada símbolo do Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena (CHPB). O objetivo principal da iniciativa foi resgatar a história do primeiro hospital psiquiátrico do estado e oferece um espaço para discussão e reflexão acerca das atuais diretrizes no campo da saúde mental. O acervo do museu é composto por textos, fotografias, documentos, equipamentos, objetos e instrumentação cirúrgica que relatam a história do tratamento ao portador de sofrimento mental.

Assim como o “Museu da Loucura”, a iniciativa da montagem na Casa Preta, em Salvador, busca relembrar e refletir sobre a forma como as pessoas podem ser tratadas por sua inadequação aos padrões sociais. Em tempos em que os terraplanistas questionam o fato da terra ser redonda, uma lembrança importante. Assim como o Museu de Auschwitz, no mais conhecido campo de extermínio montado pelos nazistas na Segunda Guerra Mundial, lembrar e provocar a reflexão são as principais formas para impedir que crimes monstruosos contra a humanidade voltem a acontecer.


*Foram utilizados trechos de depoimentos publicados no artigo “O Holocausto Brasileira: Memórias da Colônia de Barbacena”, de Giovanna Diniz, no New Order, e fotos de Luiz Alfredo e de Carl Heinz Hahmann (Estação de Barbacena em 1948) , entre outros, além de fotogramas do documentário “Em nome da razão”, de Helvécio Ratton e reprodução de publicações antigas.

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