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Jorge e a baleia que virou churrasco


Diogo Tavares*


Jorge olhou para aquela montanha de carne e não contou conversa, sacou a peixeira e tratou de fatiar o animal em postas, emprestando eventualmente a faca para um ou outro interessado em fazer o mesmo. O trabalho não era fácil, pois a pele era grossa e havia uma grande camada de gordura.


A novidade veio dar na praia naquela última sexta-feira de agosto, em Coutos, no Subúrbio Ferroviário de Salvador. Do encalhe e morte da baleia de 15 metros de comprimento e 40 toneladas até chegar aos pratos de dezenas de famílias dos bairros pobres foi apenas questão de poucas horas.


O auxiliar de pedreiro Jorge, de 28 anos, três filhos, optou por fazer um churrasco de baleia na casa de amigos em Simões Filho. Os convidados contribuíram com a cerveja. Outra parte guardou no freezer para alimentar a família por dois meses. Atendendo a pedidos, também vendeu um tanto da “pescaria”, faturando R$ 300.


Antes de fazer o churrasco, Jorge tratou de lavar toda a carne, que ficou de molho por duas horas em vinagre - um frasco inteiro - e sumo de sete limões. Depois acrescentou cebola, alho, sal e cominho. Em seguida, refogou a carne por cerca de meia hora e finalmente levou para a churrasqueira. Os que provaram disseram que parecia peixe e carne bovina ao mesmo tempo.


Outros moradores optaram por ensopados, moquecas ou frita ao alho e óleo antes de serem alertados sobre o risco de intoxicação e de indiciamento por crime ambiental. Após os alertas, muitos deles – e o próprio Jorge – jogariam fora seus estoques. O banquete de baleia, entretanto, estava consumado.


Se na história fantástica Jonas morou na barriga da baleia, na realidade ilustrativa brasileira a baleia que ambientalistas buscaram salvar sem êxito acabaria na barriga de moradores do Subúrbio Ferroviário de Salvador. Sem poesia, sem garantias, sem IBAMA ou INEMA, sem Vigilância Sanitária, sem peso na consciência ou diarreias em dias alternados. Apenas a emblemática ilustração de uma gente que busca sobreviver aos tempos difíceis através da história não de um Jonas, mas de um Jorge, hoje conhecido na vizinhança como o Jorge da Baleia.

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