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Insensibilidade e omissão ameaçam memória da FEB na Itália


Diogo Tavares*


A mesma insensibilidade que quase relegou ao esquecimento a história dos brasileiros na Segunda Guerra Mundial pode ofuscar o principal marco desta saga na Europa. Após se omitir durante décadas da gestão do Monumento Votivo, na cidade italiana de Pistoia, o Exército Brasileiro decidiu indicar um gestor militar, com a patente de tenente, desvalorizando e descredenciando o trabalho desenvolvido desde 2003 por Mario Pereira, que substituiu o pai falecido, o ex-combatente Miguel Pereira. Como resultado, o ex-gestor pediu licença das suas atividades, suspendeu a página do espaço, que administrava numa rede social, e ameaça se desligar definitivamente do equipamento, partindo para um projeto similar no Brasil, mas a princípio desvinculado da tutela do governo brasileiro.


A situação recebeu muitas críticas em grupos de parentes de ex-combatentes, pesquisadores e admiradores da história da participação brasileira no conflito. Afinal, mais do que ser zelador de um monumento, nos últimos anos Mario Pereira se tornou o principal divulgador da história do Brasil na Segunda Guerra, recebendo e guiando grupos de turistas pelos locais onde os pracinhas lutaram, relatando a história a estudantes italianos, organizando solenidades nas datas marcantes da “libertação” da Itália pela Força Expedicionária Brasileira (FEB) e promovendo palestras dos dois lados do Atlântico, principalmente através de eventos promovidos pelas associações de ex-combatentes existentes em vários municípios do Brasil. Um trabalho amplamente reconhecido, realizado e custeado autonomamente, sem intervenção do Exército ou do Itamaraty, através da embaixada na Itália.

Principal marco histórico da atuação da FEB na Itália, o Monumento Votivo ocupa o espaço do antigo cemitério militar, onde foram enterrados 465 soldados brasileiros mortos em combate. O primeiro gestor foi o pai de Mario, o sargento Miguel Pereira, que foi escalado em 1947 para cuidar do espaço, após a volta das tropas da FEB para o Brasil. “Quando cheguei vi um monte dos mortos. Ih, parece uma bandeira de mortos. Fiquei com uma coisa calada no coração e naquele momento eu decidi alguém vai cuidar daqueles mortos. Foi um dos motivos pelo qual em fiquei em Pistoia“, disse Miguel Pereira, na frente do Monte Castelo, em depoimento para o documentário “A Cobra Fumou” (2000). Outro motivo foi a jovem italiana Giuliana, mãe de Mário, como ela relatou em depoimento para o documentário Piazza Brasile (2013), também registrado no livro de fotografias “Sobre guerra e gratidão” (preview abaixo).


Em 1960, os corpos dos soldados brasileiros foram transladados para o Brasil, para o Monumento aos Ex-combatentes, no Aterro do Flamengo, Rio de Janeiro, e o cemitério foi transformado no Monumento Votivo Militar. Somente um corpo, resgatado por Miguel Pereira muitos anos após a guerra, representa os brasileiros tombados e está hoje em Pistoia, homenageando todos os que estiveram ali sepultados: o Soldado Desconhecido.


PIAZZA BRASILE

Segundo Mario Pereira, que assumiu a “missão” após a morte do pai, os problemas na gestão do Monumento Votivo começaram há dois anos, com a chegada do novo adido do Exército. “Quando ele chegou viu de perto os apertos que eu passava e passo e começou a mandar cartas ao comando do EB para que algo mudasse, para solucionar minha situação e que eu fosse colocado na possibilidade de ampliar ainda mais a obra de divulgação que venho fazendo, mas sendo, finalmente reconhecido e remunerado por isso”, conta. Apesar dos apelos, apenas o posto do militar foi oficializado em decreto, sem nenhuma menção das funções que o próprio Mario deveria desempenhar com a chegada do tenente.


Após procurar a Embaixada Brasileira, à qual é ligado por vinculo de contrato, para saber qual seria a sua função, Mário foi informado que deveria apenas cuidar do monumento, colaborando com o preposto militar, e que todas as outras atividades foram realizadas “por conta própria”, sem compromisso do cargo. Mario então sugeriu que outra pessoa fizesse esta função de guardião do Monumento pelo período mínimo de 10 anos, para que ele pudesse se dedicar ao trabalho de fortalecer os laços de relações com as autoridades dos locais onde a FEB atuou, continuando a se dedicar a palestras e visitas guiadas. A opção também foi rejeitada.


No dia 15 de setembro, o tenente QAO nomeado entrou em serviço oficialmente como Chefe do Monumento. Diante disso, Mario pediu uma licença não remunerada pelo período de seis meses, para tentar organiza no Brasil, autonomamente, uma rede de divulgação junto às escolas públicas, particulares e universidades A licença foi negada, obrigando Mario voltar repentinamente para o trabalho no monumento.


De acordo com Mario Pereira, nos últimos anos uma mudança na tributação provocou uma perda de 35% na remuneração que ele tinha em até 2017. E com a chegada do tenente, que recebe um salário quatro vezes superior, o ex-gestor ficou sem jeito: “Mais que o salário, foi cortada a dignidade e o reconhecimento de um trabalho que atinge duas gerações. Não posso mais fazer praticamente nada das atividades que criei e desenvolvi por minha conta, com os diplomatas sem querer tomar conhecimento e só chegando no momento da foto para estufar o peito”, desabafou. Além da suspensão das atividades nas redes sociais, Mario Pereira também encaminhou correspondência para as pessoas que cederam a ele objetos para a implantação de um futuro memorial no monumento. Na correspondência, pedia que as pessoas escolhessem entre as alternativas de manter os objetos com ele, deixar sob a guarda do monumento ou receber de volta. No caso do manuscrito original do diário do tenente Italo Diogo Tavares, “Nós vimos a cobra fumar”, a escolha foi manter a guarda com Mario Pereira, retirando o documento do monumento.



Assim como repercutiu nos grupos e páginas nas redes sociais, a mudança de linha na preservação da história da FEB na Itália foi criticada em blogs e sites especializados, como o “Jornalismo de Guerra”. Em contato com a Assessoria da Embaixada do Brasil na Itália, o blog obteve uma resposta, assinada pelo ministro-conselheiro João Paulo Alsina, minimizando os fatos:


“A resposta objetiva às suas indagações é difícil tendo em conta que partem de premissas equivocadas. De início, esclareço que não houve redução alguma do salário do nosso colaborador Mário Pereira. De outra parte, esta Embaixada não fará qualquer consideração sobre aspectos subjetivos como um suposto “desentendimento” entre a Embaixada e seu auxiliar local (título da função exercida, com grande competência, pelo senhor Mário Pereira)”.


O fato é que a burocracia oficial não demonstra preocupação em manter o trabalho desenvolvido por Mario Pereira ao longo dos últimos 23 anos. Perde a preservação da história da FEB na Itália em acervo, em experiência e em dedicação. Avança o aparato burocrático do estado. Surpreendente que isso ocorra exatamente com a volta de militares aos cargos de presidente e vice-presidente do país, igualando a insensibilidade com relação à história da FEB praticada pelo governo Getúlio Vargas após a Segunda Guerra. Naquela época, muitos ex-combatentes morreram na miséria, perambulando pelas ruas de grandes cidades. Agora é a memória deles que é relegada à própria sorte. Como lembra Mario Pereira, no texto em que anuncia a suspensão da página do Monumento: “Conspira contra a própria grandeza o povo que não cultua seus feitos heroicos”.


*(Eduardo) Diogo Tavares é jornalista, editor do site Cidade da Bahia, organizador do livro “Nós vimos a cobra fumar”, co-autor do livro “Sobre guerra e gratidão”, produtor do documentário “Piazza Brasile” e autor das fotos desta matéria (Mario Pereira e Monumento Votivo).

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