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Herói no improviso

Ou o dia em que uma cavalaria de vento mostrou que na dúvida o melhor a fazer é picar a mula



Por Diogo Tavares*


Salvador, 8 de novembro de 1822


A batalha já durava cinco horas. Os partidários da independência do Brasil, proclamada três meses antes, nas margens do Riacho do Ipiranga, em São Paulo, defendiam com muito sacrifício as posições ocupadas na localidade de Pirajá. Era um ponto estratégico para as tropas fiéis a Portugal, comandadas pelo general Madeira de Melo.


Com a Baía de Todos os Santos à esquerda e o Oceano Atlântico à direita, aquele era o caminho por terra de Salvador para o Recôncavo, região produtora da riqueza do açúcar e de suprimentos vitais. Mesmo assim, o número de soldados e os recursos empregados na ofensiva eram surpreendentes. Além do ataque frontal, Madeira mandara um bom contingente das forças em barcos, tendo desembarcado nas praias de Itacaranha e Plataforma com o objetivo de avançar sobre os partidários da independência pelo flanco esquerdo. Desta forma, praticamente cercadas, é que as tropas brasileiras, sob comando de Barros Falcão, se encontravam diante de uma derrota iminente.


Meses antes, o general Madeira de Melo não quisera conversa com essa história de proclamação da Independência. Era oficial da Coroa Portuguesa, a quem jurara fidelidade, e como tal manteria todas as tropas sob o seu comando na Bahia fiéis ao colonizador. Isso incluía, além de recursos que garantiam os regimentos pagos, incomparável quantidade de armas, pólvora e embarcações. O recém instituído império do Brasil, sediado no Rio, não tinha condições de ajudar as tropas brasileiras inicialmente dispersas pelo interior. O comandante geral, o general Labatut, sonhava com uma grande tomada de Salvador ao mesmo tempo em que buscava minar as forças inimigas, realizando ataques para comprometer o recebimento de suprimento pelos portugueses. Já que o porto seguia sob controle de Madeira de Melo, restava tentar um bloqueio por terra. Daí a tomada e a tentativa de manutenção de Pirajá.


Do alto dos morros do Coqueiro e Bate-folha os brasileiros tinham visto o avanço das tropas portuguesas pelas duas frentes logo ao amanhecer do dia. A muito custo, vinham tentando barrar a ofensiva dos portugueses, mas a superioridade de efetivo e de armas era muito grande. Após cinco horas, esgotadas todas as possibilidades e diante da perspectiva de inútil perda de vidas, o comandante dos brasileiros em Pirajá, Barros Falcão, mandou chamar o corneteiro Luís Lopes para que transmitisse através do toque uma ordem para as tropas.


“Transmita a ordem de recuar para reagrupar”, teria dito ao subalterno.

Uma versão conta que o corneteiro teria relutado em obedecer ao oficial, se fazendo, por assim dizer, de surdo. Dizem até que Barros Falcão teria desembainhado a espada para fazer cumprir sua ordem. Seja por convicção, distração ou por estar realmente surdo, o fato é que, quando soprou a corneta, o que se ouviu nas tropas brasileiras e portuguesas foi a ordem de avançar a cavalaria e decolar.


A surpresa e o susto foram gerais, até porque, assim como os portugueses, os brasileiros não tinham a menor idéia da existência da tal cavalaria. Enquanto os futuros heróis da independência perguntavam uns aos outros o que fazer, os portugueses provavelmente pensaram o quanto desconfortável seria ter as cabeças separadas do resto do corpo. Aquele exército, engrossado por índios, caboclos e mestiços, parecia ser realmente um amontoado de bárbaros sanguinários. Pelo sim ou pelo não, provavelmente avaliaram que o soldo que recebiam não valeria o sacrifício. Saindo completamente do controle do general Madeira de Melo, alguns portugueses se renderam. Os outros debandaram em retirada.


Entendemos, pois, que a criatividade musical e o poder de improvisação também fizeram grande diferença na Independência da Bahia, que só viria a se concretizar no dia 2 de julho de 1823. Quanto ao general Madeira de Melo, o certo é que também não ficou em Pirajá para conferir que a cavalaria brasileira não passava de um sopro de ar.


*Do livro Notícias de uma terra dessemelhante