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Hair pandemia anuncia uma nova era



Diogo Tavares*


A busca por uma sociedade alternativa, a defesa da paz em meio à guerra do Vietnã, a liberdade sexual expressa no amor livre, a igualdade racial by Black Power, o feminismo incinerador de sutiãs, o melhor da literatura beat on the road e do rock refletido em Woodstock, o movimento hippie e muitos outros eventos, como a Tropicália no Brasil, embalaram as jovens madeixas nos anos 60 do século passado. Deixariam marcas profundas na civilização, mesmo que Lennon e McCartney não soubessem do lixo ocidental, refletindo dentro e sobre cabeças nas décadas seguintes.


Então, 60 + 60, em meio à caretice global que dominava as bolhas smarts, um novo inimigo surgiu para evitar que a morte fosse apenas de tédio. Devo dizer, já que somos brasileiros e por isso privilegiados por Deus, que ganhamos como faixas bônus alguns desafios a mais. E deste isolamento forçado, do home office, dos salões e barbearias fechados, do desmoronar da vaidade exagerada, do sacocheismo geral, da inquisição terraplanista, do relacionamento entre telas, das saudações com cotovelos, ressurgiram, como a fonte da força de Hércules, as longas madeixas, o movimento hair pandemia. Trazendo de carona outras partes igualmente cabeludas.


Lembro de um colega de faculdade, nos anos 80, que sintetizava o seu fetiche na figura de uma menina com axilas ao natural. Não partilhávamos desta opinião em especial, mas éramos cabeludos remanescentes, frequentemente confundidos com integrantes de uma banda e eventualmente objeto de baculejo das forças policiais.


Não sei se há pesquisas com rigor científico, mas após quatro meses em ritmo de isolamento new cabeludos podem ser vistos pelas ruas. Nos mercados, alguns usam bonés, rabos de cavalo, muitos e muitas portam madeixas brancas. As roupas são simples, quase sempre moletons, bermudas e, é claro, máscaras. Talvez o ocultar de parte do rosto favoreça em relevar outras plumagens. Ou talvez seja uma nova moda.


Como adepto da abstinência ao corte capilar, sonho em ver surgir dos caracóis dos nossos cabelos uma nova consciência e juventude. Assim como o mundo dos anos 60 precisava ser mudado, este 2020 certamente é um marco, em que precisaremos reiniciar o HD da consciência humana. O novo normal certamente não será aquilo que era, mas o que surgirá ainda vai deperder das escolhas que fizermos. Talvez seja a era de aquarius tardia, ou as nossas carapinhas se destaquem no espelho principalmente para lembrar que o tempo nunca para de nos transformar e que sempre teremos que lidar com isso da melhor maneira possível.


*Jornalista e escritor; crônica publicada primeiramente no site Notícia Capital.

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