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Há 75 anos o Brasil entrava de fato na II Guerra


Há exatamente 75 anos, no dia 29 de junho de 1944, Italo Diogo Tavares, então aspirante a tenente de Infantaria do Exército Brasileiro, começava a escrever o seu diário de guerra, publicado pela primeira vez 60 anos depois, em 2004, com o título de “Nós vimos a cobra fumar”. Embora a informação sobre o embarque da FEB para a Itália fosse segredo, muitos pracinhas já consideravam a partida como certa.


Como Italo escreveu: “Estamos hoje de prontidão às 17h. A informação que nos foi prestada era que iriamos passar 15 dias no campo, tendo instruções no âmbito do Regimento de Infantaria, porém nós tínhamos a impressão que seria o embarque para os campos de batalha. O meu capitão deu-me três horas para ir em casa me despedir da minha família”.


Em seguida ele conta como foi a despedida da mãe e da irmã de criação. “Encontrei em casa somente a minha mãe e a Marcília. Foi dificílimo abordar o assunto que me levava a casa. Já sabia que minha mãe não resistiria à minha partida. Quando entrei para a Escola Militar, levou tempo para que ela se acostumasse a passar a semana toda em casa sem me ver e sem ter notícias minhas. Era preciso telefonar todas as quartas feiras dando notícias, pois se não o fizesse era certo ela lá aparecer na quinta feira, à hora da saída, após o jantar. Nem me recordo como fiz ver a ela que devia partir. Creio que balbuciei apenas algumas palavras. O tempo era tão curto. Não foi possível me despedir do meu pai e de meus avos. Prestei a ela as últimas informações sobre como deveria fazer para se corresponder comigo. Ao me despedir ela não resistiu e, chorando, me disse: ‘Vai, meu filho, vai’. Saí com os olhos cheios d’água, não por ter que ir, porém por saber que minha mãe ficaria sofrendo com a minha ausência. Ela, que há 20 anos não se separava de mim”.


O embarque de Italo ocorreu no dia seguinte. O navio General Mann ainda ficaria ancorado no Porto do Rio até o dia 1º de julho para a acomodação de todos os 5.090 homens integrantes do primeiro escalão da FEB. Outros escalões se sucederiam em 22/09/44, 25/11/44 e 09/02/45, somando 25.334 brasileiros levados ao chamado teatro de operações da Itália, integrados ao 5º Exército dos Estados Unidos, sob comando do general Mark Wayne Clark.


Na chegada do primeiro escalão a Nápoles, no dia 16 de julho de 1944, os brasileiros puderam ver as primeiras imagens da destruição causada pela guerra: “Por todo lugar se nota os vestígios da guerra, com casas completamente destruídas por bombas. Pelas ruas, as crianças andam pedindo cigarros e liras. As mulheres se vendem com grande facilidade. As crianças andam nas ruas oferecendo ‘senhorinas’ para os soldados. A moral do povo italiano está muito baixa. Os maridos nos levam às suas casas para possuir suas mulheres, os guris para possuir suas irmãs com o consentimento dos pais”, escreveu Italo no seu diário, que prossegue relatando o seu dia-a-dia ao longo de todo o período da guerra.


TRECHOS:


“Aqui, quando quer dizer que a coisa está feia, diz-se que a cobra vai fumar” (Livorno, agosto de 1944).


“Estamos num regimento comandado por dois generais e três coronéis. Não é possível se produzir nada. Não te ho confiança nenhuma em todos eles” (Tarquinia, agosto de 1944).


“Mal deu tempo para que nos deitássemos. Senti logo um bafo quente na face e meu capacete voou da cabeça. Começamos logo a ouvir gritos e vozes de feridos. Vi logo que tinha morrido alguém, pois a granada havia caído a uns dois metros de onde estávamos e bem no meio do pessoal” (Palazzo, dezembro de 1944).


“Aqueles que vivem na retaguarda, envergando belos uniformes, tomando banhos perfumados todos os dias, comendo fartos banquetes, dormindo em confortáveis camas, tendo belas estufas para se aquecer, acompanhando a guerra em grandes mapas pregados na parede e pedindo todos os dias para a guerra durar mais 30 anos, nós chamamos de saco B” (Torre de Nerone, janeiro de 1945).


“Um certo conhecido nosso, considerado como herói, não passa de um refinado ladrão. É um ladrão fino mesmo. Na sua coleção figuram alguns quadros no valor de algumas centenas de contos comprados por 150.000 liras em Milão. O pagamento, entretanto, não foi feito com dinheiro seu e sim com cigarros americanos” (Casei Gerola, maio de 1945).

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