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Há 75 anos a humanidade superava sua maior guerra



Hoje o desafio é vencer a Covid-19 e superar a recessão econômica gerada pelas medidas de contenção e combate à pandemia. Mas há exatamente 75 anos, no dia 8 de maio de 1945, chegava ao fim o maior conflito militar da história da humanidade, a Segunda Guerra Mundial. Após o cessar dos combates anunciado na véspera (7), o restante comando militar da Alemanha nazista assinaria, em uma Berlim devastada, a rendição incondicional diante dos comandantes do Exército Aliado e da União Soviética.


“Acabou a guerra”, "Vitória", noticiaram os jornais brasileiros, em edição extra, ainda no dia 7 de maio, antecipando a própria rendição formal. “Ouvindo o rádio, às 16h30, soube que às 14h30 o general comandante de todas as tropas alemães havia decretado a rendição incondicional de todas as tropas em operações”, escreveu em seu diário naquele dia, na cidade italiana de Casei Gerola, o tenente Italo Diogo Tavares. Ele era um dos 25.334 brasileiros enviado ao fronte na Itália e que já haviam colaborado para a derrota e rendição semanas antes de todas as tropas nazistas e fascistas naquele país. Saiba mais no documentário Piazza Brasile.


Era uma segunda-feira. Hitler já havia cometido suicídio em seu bunker da capital alemã e a notícia de que o novo Führer, almirante Karl Dönitz, determinara “a rendição incondicional de todas as forças alemães” correu o mundo. “Continuar a luta seria apenas provocar uma sangueira insensata, acompanhada da desintegração inútil do nosso país”, justificou para o povo alemão, através da rádio, o ministro do Exterior do Reich, Lutz von Krosigk.


Desde o início do conflito em 1939, com a invasão da Polônia pelas tropas de Hitler, mais de 50 milhões de pessoas haviam morrido, muitas exterminadas em campos de concentração. Recém-chegado à Casa Branca, após a morte de Franklin Roosevelt em abril de 1945, o novo presidente dos Estados Unidos, Harry Truman, declarava sobre a vitória dos Aliados: “O mundo está agora livre das forças do mal que durante mais de cinco anos roubaram as vidas de milhões de homens livres”. Já Winston Churchill, primeiro-ministro britânico, anunciava que era uma questão de horas para a capitulação dos alemães ser “ratificada e confirmada em Berlim”.


No dia 8 de maio, as notícias vindas da Europa relatavam uma dramática cerimônia de rendição incondicional nas ruínas de Berlim, na parte controlada pelos russos. O ato marcava o fim oficial da Segunda Guerra em território europeu (o Japão se renderia somente em setembro). A ata, no entanto, só seria assinada no final da noite (já 9 de maio para os soviéticos), sendo esta a data em que o Dia da Vitória é celebrado na Russia.


Em Salvador, o dia 8 de maio de 1945 foi quase um Carnaval fora de época, como relatou a historiadora Consuelo Novais Sampaio no artigo A Bahia na Segunda Guerra (reproduzido aqui no Cidade da Bahia). Como descreveu, "o comércio fechou suas portas, as repartições públicas não funcionaram, a fim de que todos pudessem festejar o fim do grande conflito. Nos prédios principais, a bandeira nacional foi hasteada ao lado da das Nações Unidas". Já o jornal A Tarde relataria:


"A Rua Chile apresentava aspecto de um dos mais animados dias carnavalescos. O trânsito de bondes teve de ser interrompido à noite, tamanha a multidão que ali se comprimia, dançando e cantando, brincando a valer ao som de músicas populares".



No Centro do Rio de Janeiro, capital do país, multidões comemoraram com fogos de artifício, passeatas, comícios e desfiles de bandeiras dos países vencedores. Na escadaria do Teatro Municipal, representantes da Liga de Defesa Nacional, da União Nacional dos Estudantes (UNE) e dos trabalhadores se revezaram em discursos para o povo que se aglomerava até a Praça Marechal Floriano e o Palácio Monroe, antiga sede do Senado Federal. Depois, a multidão caminhou em passeata até o Palácio Guanabara, em Laranjeiras, residência oficial do presidente Getúlio Vargas durante a ditadura do Estado Novo (1937-45). Das escadarias do palácio, Vargas discursou para o povo enaltecendo os combatentes brasileiros e falou sobre o futuro democrático do Brasil “no concerto das Nações Unidas”.


Naquelas horas de euforia, soldados brasileiros que já haviam voltado da guerra também receberam homenagens. Alguns expedicionários feridos na Europa acompanharam pela rádio as notícias e fizeram “coro com o rádio” cantando “God bless America” e dando vivas ao Brasil. A alegria dos cariocas também acabou em Carnaval. Em meio ao desfile de escolas de samba pelas ruas do centro da cidade, manifestantes carregavam cartazes com slogans reivindicando democracia no país. Outros eram de repúdio ao nazi-fascismo e ao integralismo. Acompanhadas por bandas de música, as escolas de samba desfilaram com seus ritmistas pela Avenida Rio Branco, passando pelo Largo da Carioca e pela Cinelândia, chegando até a Lapa.



Como relata Italo Diogo Tavares em seu diário, publicado com o nome de “Nós vimos a cobra fumar” (2013), somente um mês depois da rendição alemã a FEB começou a se deslocar para o sul da Itália, onde embarcaria de volta ao Brasil. O primeiro grupo, no qual estava Italo, desembarcou no Rio de Janeiro em 18 de julho. O último deixou Nápoles apenas no dia 19 de setembro. No Brasil, os pracinhas foram recebidos primeiro com festas, com desfiles públicos de comemoração pela vitória. Todos ganharam até uniformes novos. Depois viveriam uma fase de abandono, muitos sem dinheiro e empregos, vagando pelas ruas, situação que só seria parcialmente compensada na década de 60, quando os sobreviventes receberiam direitos como pensão vitalícia.


O principal motivo para o abandono dos pracinhas e para a extinção imediata da Força Expedicionária Brasileira (FEB) era político. O presidente Getúlio Vargas temia que os expedicionários tramassem contra o governo. O receio tinha fundamento, já que os pracinhas tinham ido à Europa combater as ditaduras do alemão Adolf Hitler e do italiano Benito Mussolini. Podiam, muito bem, opor-se à ditadura que Vargas comandava no Brasil. Ele havia assumido o poder em 1930 e, depois de um golpe, em 1937, criou um regime autoritário, o chamado Estado Novo.


Apesar de resultar em várias tragédias individuais, inclusive com notícias de suicídios, a volta dos combatentes realmente contribuiu para aumentar a força das correntes democratizantes na sociedade e dentro do Exército. Ironicamente, até os militares que garantiam a vigência do Estado Novo - especialmente os generais Pedro Auréllio de Góis Monteiro e Eurico Gaspar Dutra - participariam do movimento dos chefes das Forças Armadas, que acabou depondo o ditador em 29 de outubro de 1945. Naquele ano parecia que o Brasil, após o sacrifício da guerra, havia se inscrito definitivamente na relação das grandes democracias mundiais.



A COBRA FUMOU


Após ter navios torpedeados por submarinos alemães ou italianos em seu litoral, que resultariam na morte de 742 brasileiros, na grande maioria civis, o Brasil declarou guerra à Alemanha e à Itália no dia 22 de agosto de 1942. Em 6 de janeiro de 1943, o então ministro da Guerra, general Eurico Gaspar Dutra, fez uma exposição de motivos ao presidente da República, Getúlio Vargas, na qual se propunha a organização de uma Força Expedicionária Brasileira (FEB) para tornar efetiva a participação do Brasil na guerra.


A notícia da formação da FEB provocou inicialmente piadas e ironias. Uma das anedotas populares dizia que era mais fácil uma cobra fumar do que o Brasil enviar soldados para a guerra. Anos depois a ironia seria transformada em símbolo oficial, com a adoção do desenho de uma cobra fumando como escudo da FEB. O termo “a cobra vai fumar” também se tornou comum entre os pracinhas e depois no país inteiro com o sentido de “a coisa vai pegar”, “vai ficar feio”.


Em 9 de agosto de 1943, através da Portaria Ministerial nº 47-44, foi determinada a organização da 1ª Divisão de Infantaria Expedicionária (DIE), composta por unidades de infantaria, artilharia, engenharia e saúde, entre outras, num total de 25.334 homens (15.069 da tropa combatente). Para comandar a 1ª DIE, foi indicado o general-de-divisão João Batista Mascarenhas de Moraes. Para comandar a Infantaria Divisionária, foi escolhido o general de brigada Euclides Zenóbio da Costa, enquanto a Artilharia Divisionária ficou sob o comando do general-de-brigada Oswaldo Cordeiro de Farias. Os órgãos não divisionários da 1ª DIE foram subordinados ao general de brigada Olympio Falconieri da Cunha, que ocupava também o cargo de Inspetor Geral da FEB.


Originalmente, pretendia-se estabelecer três divisões expedicionárias de infantaria, mas as dificuldades em se organizar a 1ª DIE fizeram com que todos os esforços fossem concentrados nesta única divisão. Essas dificuldades, segundo versão oficial, decorriam da necessidade de se adequar o Exército do Brasil a conduzir operações de guerra fora do território nacional, para o qual não havia sido treinado, e do elevado índice de treinamento necessário para se utilizar com eficácia o equipamento norte-americano.


Em julho de 1944, o 2º Grupamento Tático da FEB embarcou a bordo do navio de transporte de tropas norte-americano “General William A. Mann”, como se estivesse participando de um treinamento. No dia de 2 julho, esse navio, transportando o comando e o primeiro escalão de embarque, zarpou do porto do Rio de Janeiro, sendo escoltado até Gibraltar pelos contra-torpedeiros “Marcílio Dias”, “Mariz e Barros” e “Greenhalg”, da Marinha do Brasil. Ao entrar no Mar Mediterrâneo, recebeu uma escolta adicional de navios britânicos.

Desconhecendo inicialmente seu porto de destino, os 5.090 homens do primeiro escalão de embarque da FEB chegaram no dia 16 de julho à Nápoles, Itália. Outros embarques de tropas se seguiram no dia 22 de setembro (10.340 homens), 25 de novembro (4.682 homens) e 9 de fevereiro de 1945 (5.082 homens). Ao chegar à Itália, a FEB passou a fazer parte do 5º Exército dos Estados Unidos, comandado pelo general Mark Wayne Clark.


Durante a sua atuação, a FEB seria responsável por importantes conquistas do Exército Aliado, tomando cidades e regiões que estavam sob controle nazista, como Montese, Massarosa, Camaiore, Monte Prano e Castelnuovo. Uma das mais emblemáticas foi a conquista de Monte Castelo, conflito que se arrastou por três meses. A guerra provocaria a morte de 450 soldados, 13 oficiais e oito pilotos brasileiros e deixaria 12 mil feridos em combates. A maioria dos corpos seria enterrada no Cemitério Brasileiro de Pistoia e transferida em 1960 para o Monumento Nacional dos Mortos da Segunda Guerra, no Aterro do Flamengo, Rio de Janeiro. O antigo cemitério de Pistoia hoje abriga o Monumento Votivo Militar Brasileiro e o túmulo do soldado brasileiro desconhecido, com um corpo encontrado mais de 20 anos após o final de guerra.


*Fotos da comemoração do final da guerra em Belo Horizonte (1), capas do jornal O Globo noticiando o fim da guerra (2), desfile dos pracinhas na volta ao Brasil (3), população de Camaiore recebe com festa os “libertadores” da FEB (4)

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