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Há 55 anos o Vila Velha surgia com o Teatro dos Novos


“Presentes o governador Lomanto Júnior, o prefeito Nelson de Oliveira e outras autoridades, foi inaugurado aqui (Salvador) o Teatro Vila Velha, iniciativa do grupo Teatro dos Novos”. Com esta pequena nota em O Jornal, do Rio de Janeiro, o surgimento de um novo teatro na capital baiana foi noticiado no Sudeste do Brasil. O nome do teatro ganharia mais destaque nos anos seguintes com a chegada por lá dos baianos Maria Betânia, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Gal Costa para atestar a existência de um palco baiano destinado a projetar novos talentos.


O Teatro Vila Velha, cravado no meio do Passeio Público em Salvador, foi inaugurado há 55 anos, no dia 31 de julho de 1964. O regime militar estava completando quatro meses e os jornais ainda noticiavam resistências ao novo governo, como a posição de Carlos Lacerda, governador do Rio, assunto da manchete do Jornal do Brasil naquele dia.


O momento em que o teatro nasceu não poderia ser mais importante. Mas era o resultado de um movimento iniciado cinco anos antes, em 1959, quando sete estudantes da primeira turma da Escola de Teatro da Universidade Federal da Bahia, que discordavam dos métodos utilizados pelo diretor Martim Gonçalves, resolveram se desligar da escola, faltando apenas três meses para conclusão do curso, e buscar novos caminhos para a sua expressão.


A mais experiente estrela do Vila fazia parte dessa turma: a atriz Sônia Robatto. Com ela e seus colegas, saiu também o professor João Augusto de Azevedo. Juntos, eles fundaram o primeiro grupo de teatro profissional da Bahia, a Companhia Teatro dos Novos, que reuniria também Othon Bastos, Echio Reis, Carlos Petrovich, Thereza Sá e Carmem Bittencourt.


Entre 1959 e 1964, a Companhia se apresentou em praças públicas e auditórios de escolas da capital. Quando passeavam pelo passeio público, observaram o terreno que daria espaço para o teatro e chegaram à conclusão. O local era um antigo zoológico e que foi preciso ir até o governador da época para que ele liberasse o uso do espaço. E assim foi feito. O projeto arquitetônico do primeiro Vila foi do irmão de Sônia Robatto, Silvio Robatto, que transformou em realidade o sonho da companhia.


Entre a cessão do espaço e a inauguração do teatro, os membros da companhia fizeram campanhas de arrecadação entre amigos e personalidades públicas. O grupo recebeu desde doações de roupas a materiais de construção, sobras de obras públicas.

A maneira como o teatro nasceu já ilustra sua marca mais importante: a resistência. O primeiro espetáculo encenado no palco do no Vila foi “Eles não usam black-tie”, premiado texto de Gianfrancesco Guarnieri. A história da peça se passa em meio a uma greve de operários.


Pouco tempo depois de inaugurado o novo espaço, os baianos Caetano Veloso, Maria Bethânia, Gilberto Gil, Tom Zé e Gal Costa (quando ainda era conhecida como Maria da Graça) fizeram um espetáculo que ficou marcado na história do teatro, o “Nós, Por Exemplo”.


Em 1990, quando o Axé Music ainda engatinhava, o Vila Velha foi o apoio necessário para o surgimento de um dos mais famosos grupos de teatro da Bahia: o Bando de Teatro Olodum. A criação de Márcio Meirelles e Chica Carerlli nasceu como uma forma de manter uma identidade negra no teatro, como um reforço dessa identidade numa das cidades mais negras do país.


Os problemas estruturais do Teatro Vila Velha, entretanto, levaram a uma nova cruzada de resistência. Em 1994, foi lançado um projeto de revitalização. A fim de reformar o teatro, foram feitas campanhas de arrecadação. Caetano e Bethânia chegaram a fazer shows sem cobrança de cachê, com a bilheteria totalmente revertida para o teatro. Com as doações e ações beneficentes, o novo Vila Velha foi reaberto à comunidade, em 1998. Depois da reforma, que só deixou de pé duas paredes do projeto original, o Vila encampou uma luta por aumento de público.


Em mais de meio século de existência, o Vila abrigou e foi mantido por diversos artistas (como o Grupo Teatro Livre da Bahia), realizou eventos de notoriedade para a cultura baiana (tais como os Shows do Improviso e o Baile das Atrizes, com a irreverente e marcante presença de Baby Consuelo) e continuou a lançar nomes para o cenário artístico-cultural brasileiro, como Lázaro Ramos, Virgínia Rodrigues e Gustavo Melo.


Por tudo isso este dia 31 de julho é lembrado pelo diretor Márcio Meirelles através das redes sociais: “Nesta quarta, 31, o palco não abre suas portas (...). O espetáculo de hoje é a memória de todos os espetáculos. É o sinal de que se vocês não vierem poderá estar fechado. No dia depois do 31, o primeiro, o dia seguinte, estaremos abertos com nossa programação. E seguiremos, seguiremos”.