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Há 50 anos a taça do mundo parecia ser nossa



Diogo Tavares*

“Alô, alô, México”, disse o locutor, iniciando há 50 anos a primeira transmissão de uma final de Copa do Mundo de Futebol ao vivo pela TV, no dia 21 de junho de 1970. Direto da Cidade do México, se enfrentavam as seleções de Brasil e Itália. A televisão ainda era uma novidade para a maior parte dos brasileiros e a primeira imagem transmitida ao vivo para o Brasil tinha feito pouco mais de um ano: a decolagem do foguete espacial Apolo 9, em março de 1969. A segunda seria outra conquista espacial: a chegada do homem à Lua, com a Apolo 11, em 20 de julho de 1969 (veja matéria aqui).

Desta forma, no que se refere à TV ao vivo, os olhos dos brasileiros estavam voltados para os céus e conquistas. Bicampeão com as copas da Suécia em 1958 e Chile em 1962, o Brasil sonhava se tornar o primeiro tricampeão mundial de futebol diante da também bicampeã Itália (1934 e 1938, na era Mussolini). Quem vencesse, garantiria três estrelas na camisa, a posse definitiva do troféu Jules Rimet e possivelmente o protagonismo no esporte bretão pelos anos seguintes. O Brasil ainda é o maior vencedor da competição, mas a taça de ouro seria roubada no Rio de Janeiro e derretida alguns anos após a conquista, tendo os brasileiros que se conformar hoje com uma réplica.

“Foi um Rio que passou em minha vida”, de Paulinho da Viola, consta como a música mais tocada em rádios no Brasil em 1970. A segunda é o jingle da copa, “Pra frente Brasil”, deixando “Jesus Cristo”, com Roberto Carlos, em terceiro. Profético que o otimismo por um país vencedor e a própria fé cristã fossem superados naquele ano pelo saudosismo de algo que passou. Como analogia, a final de 1970 acabaria virando ilustração de um futebol perdido, e com ele a inocência dos que amam a camisa mais do que os contratos, ou o país mais do que seus interesses públicos ou privados.

Com sete anos na época, a Copa de 1970 é a minha mais antiga recordação de estar com a família na frente de um televisor. O gol do capitão Carlos Alberto nos 4 a 1 que deram o título ao Brasil foi um canhão e uma verdadeira explosão. Na época não se percebia, mas uniu os gritos de inocentes e injustiçados aos de exploradores e torturadores. Depois surgiria o jingle “Brasil, ame-o ou deixe-o”, que marcaria o longo período de trevas e que influencia na realidade do país até hoje.

Mas há 50 anos, no Estádio Azteca, eram dois bicampeões buscando a posse definitiva do troféu mais cobiçado do futebol mundial. Talento, raça e determinação apareciam em todo o campo, atrás e na frente, á esquerda e à direita, e mesmo o susto do gol de empate do adversário se tornaria mais um ingrediente de superação. Quando o árbitro alemão Rudi Glöckner apitou o fim da partida, multidões foram às ruas das cidades brasileiras. Dava para sentir o país do futuro, embalado pelo milagre econômico. Mas nos anos seguintes a realidade seria outra e o “milagre” não passaria de um ciclo de populismo fadado a se repetir.

Hoje nem mesmo a presença de um inimigo comum – e mortal – é capaz de nos unir. Talvez tenhamos aprendido menos com a garra, o talento e o espírito coletivo dos que conquistaram aquela copa do que com o oportunismo e a desonestidade dos que roubaram impunemente a taça Jules Rimet. Mas a mesma história que nos ensinou a`"Lei do Gerson" mostra que as nossas decisões e ações, mais do que resultar em taças que podem ser derretidas, tendem a gerar consequências, como um legado indestrutível. É isto que ficou de fato daqueles tricampeões e é o tipo de herança que podemos deixar para o futuro se não quisermos nos contentar eternamente com a réplica de uma taça roubada.

*Diogo Tavares é jornalista.

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