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Há 30 anos Raulzito dava seu último passeio em Salvador

Conheça os lugares que marcaram a vida do maluco beleza na capital baiana


Aos gritos entoados de “Viva... viva... viva a sociedade alternativa” e apelos de “não enterrem Raulzito” a turba invadiu a capela do cemitério Jardim da Saudade, em Salvador, levantou o caixão e saiu carregando o féretro, de mão em mão, aos trancos e barrancos. A exemplo do Quincas Berra D’Água de Jorge Amado, cerca de cem fãs inconformados queriam levar o maluco beleza para um passeio pelas ruas de Salvador, para beber mais alguns goles e fumar uns baseados, pois ele, que nascera há dez mil anos atrás, não poderia estar morto.


A cena acima foi descrita pelo amigo e parceiro dos últimos trabalhos, Marcelo Nova, que acompanhou o velório em São Paulo e o enterro em Salvador naquele final de tarde do dia 21 de agosto de 1989. Apesar dos familiares estarem em estado de choque diante da confusão, a mãe de Raul chegaria a comentar: "Se Raul pudesse ver isso, ele ia adorar!". Para alguns foi o último passeio com os fãs, para outros, mais céticos, foi o inacreditável roubo do corpo do defunto. O fato é que há 30 anos os fãs se despediam do maior ídolo do rock brasileiro de forma inusitada, como era de se esperar diante da vida que ele levara e da obra que produzira.


Neste último passeio, Raul poderia visitar alguns lugares marcantes da sua vida na capital baiana. É o caso da Avenida Sete, onde, no número 108, ficava o sobrado em que Raul Santos Seixas nasceu, às 8 horas da manhã em 28 de junho de 1945. O imóvel depois seria ocupado por um restaurante de comida portuguesa (A Portuguesa). Raul era o primeiro filho de um casal de classe média baiana. Seu pai, Raul Varella Seixas, era engenheiro da estrada de ferro e sua mãe, Maria Eugênia Santos Seixas, se dedicava às atividades domésticas. Neste casarão ficou apenas dois meses. Depois, foi para a casa da família em Monte Serrat. Os Seixas ainda tinham um reduto em Dias d’Ávila, onde o futuro ídolo se divertia nas águas do Rio Imbassaí.


Alguns prédios que abrigaram os colégios onde Raul estudou ainda estão de pé em Salvador. E olha que a população da cidade aumentou de 500 mil para três milhões nestes anos. É o caso do casarão que abrigava uma creche na Rua Rio Itapicuru, no bairro de Monte Serrat, palco de algumas das primeiras travessuras. No Colégio Ipiranga, na Ladeira do Sodré, Raul conheceu Thildo Gama, um dos primeiros parceiros na música. Já o Colégio São Bento, na Avenida Sete, foi responsável por três das reprovações na segunda série. Um dos motivos das “bombas”, segundo alguns biógrafos, é que ele passava os dias ouvindo rock and roll na loja Cantinho da Música, ainda no Centro da cidade. O jovem Raul também era apaixonado por cinema e chegava a ficar das 14h às 22h assistindo sessões de filmes como “Balada Sangrenta”, com Elvis Presley. Eram espaços como o Aliança, Popular, Jandaia, Glória, Pax e Guarany, que depois viraram templos religiosos ou foram demolidas.


Raul começou na música muito cedo, aos 10 ou 11 anos de idade. Com Thildo e Enelmar Chagas, formou os Relâmpagos do Rock, a primeira banda. Anos mais tarde, vieram Os Panteras. A concentração da turma era na Praça da Piedade. De lá, podia-se ir a boates como o Anjo Azul, na Rua do Cabeça, na qual ele se sentia à vontade, ou no Good Neighbour Club, no Corredor da Vitória. Outro ponto era a boate Monte Carlo, na Praça da Sé. Raul também gostava de ir para os velhos bregas de Salvador, onde as moças apreciavam o bom rock and rool.


Um dos pontos mais festejados da época era o Cine Roma. O local foi muito frequentado pela juventude baiana dos anos 60. Raul era um daqueles jovens loucos pelo rock. Lá, nos Panteras, Raul tocou como banda de apoio para o jovem Roberto Carlos, já sensação no país inteiro. Também seria a banda a acompanhar o cantor Jerry Adriani, iniciando uma amizade que ajudaria a levar a banda baiana a gravar o primeiro disco no Rio de Janeiro, então capital do país. Há alguns anos o prédio foi reformado e se tornou o Santuário da Bem-aventurada Dulce dos Pobres, ou a Igreja de Irmã Dulce.


O primeiro disco, gravado em 1968, seria um fracasso de vendas. Os Panteras chegaram a passar fome e Raul Seixas, desiludido, aceitou um convite para ser produtor na gravadora CBS. Produziu discos de vários artistas e teve composições gravadas até que se lançou em carreira solo no início dos anos 70.


Foram muitos discos de sucessos. O primeiro álbum solo foi “Krig-há, Bandolo” (1973), com músicas como “Ouro de Tolo”, “Mosca na Sopa”, “Metamorfose Ambulante” e “Al Capone”. Em 1974, Raul Seixas, junto com Paulo Coelho, criou uma Sociedade Alternativa, um conceito de vida livre inspirada no ocultista Aleister Crowler, que foi tema de uma de suas canções do disco “Gita” (1974). Durante os shows de promoção do disco, distribuíam panfletos sobre a sociedade. Foram caçados pelo DOPS, presos e exilados nos Estados Unidos.


Em 1975 terminou o exílio. Nesse mesmo ano, o disco Gita já havia vendido mais de 500 mil cópias. Entre as músicas do álbum se destacaram “Sociedade Alternativa”, “Medo de Chuva” e “Super Heróis”. Lançou ainda o álbum “Novo Aeon”, com destaque para as músicas “Tente Outra Vez” e “Eu Sou Egoísta”.


Em 1976, Raul Seixas lançou “Eu Nasci Há Dez Mil Anos Atrás”, com algumas canções de temática mística, como “Canto Para Minha Morte” e “Ave Maria da Rua”. A faixa título foi um dos grandes sucessos do cantor. Em 1977 foi a vez de “O Dia em Que a Terra Parou”, com dez faixas, entre elas, “Maluco Beleza”, música que lhe valeu o apelido.


As mudanças no mercado, a falta de disciplina de Raul, que faltava a shows e quase chegou a ser linchado pelo público indignado ao não conseguir se apresentar de tão embriagado, levaram Raul Seixas a um período de ostracismo. A saúde fragilizada pelos excessos de drogas e álcool piorava a cada dia.


O período de reclusão só chegaria ao fim no final dos anos 80, com o convite do conterrâneo Marcelo Nova, ex-vocalista da banda Camisa de Vênus, para um trabalho conjunto. Deste trabalho resultaria o último disco, “A Panela do Diabo”, e uma série de shows. Com pancreatite e diabetes mal controlada, Raul Seixas faleceu na cama, no apartamento onde morava, em São Paulo, aos 44 anos.


Ainda hoje o túmulo de Raul, no Jardim da Saudade em Salvador, recebe visitas durante o ano todo, mas o movimento aumenta nas datas de nascimento e morte do artista. Apesar de simples como as outras, a lápide 1647- A da quadra 1 é a única que tem a placa de mármore preto concretada. A medida foi adotada após o terceiro roubo do objeto, levado como lembrança por fãs. Gente como Carlos Silva, que foi parar nas páginas policiais dos jornais em 1993. Pego em flagrante, ao invés de esconder o rosto, exibiu as tatuagem com referências a letras e ilustrações de discos de Raul.


E o desfecho do “passeio” de Raul naquele 21 de agosto de 1989? Bom, quem conta é Luiz Nova, em depoimento ao jornalista André Barcinski: “Levantaram o caixão e saíram. Era uma multidão enlouquecida. Os malucos sacudiam o caixão. Dava para ouvir o barulho do corpo de Raul batendo lá dentro. Eu gritei: ‘Caralho, que merda é essa? Onde é que vocês pensam que estão indo? Porra, esse cara que tá aí dentro é Raul, vocês estão querendo fazer brincadeira com ele?’. Aí um dos caras que estava na frente comandando a massa, disse: ‘Espera aê, Marceleza tem razão mesmo, porra, nós viemos aqui pra honrar o cara, não é pra fazer festa não!’ Foi esse cara que salvou o dia, que botou a bola no chão e acalmou a massa, porque nego tava louco. (...) E aí, depois de muita controvérsia, muito empurra-empurra, muita palavra de ordem, muito esporro, esse cara, que eu nunca tinha visto e que nunca mais encontrei, foi quem acalmou a multidão e conseguiu que Raul fosse enterrado”.

Trinta anos depois, muitos lugares que ele conheceu não existem mais, outros mudaram completamente. O túmulo de Raul deve voltar a ser visitado por muita gente na próxima quarta feira, dia 21. Alguns shows homenagens também estão acontecendo nestes dias. Desde 1998 a data de nascimento dele, 28 de julho, é oficialmente o Dia Municipal do Rock em Salvador. Mas para os fãs, que se renovam a cada dia, placas e datas oficiais não passam de detalhes. Afinal, enquanto houver alguém para pedir “toca Raul aí, porra”, mesmo daqui a dez mil anos, ele continuará vivo.

*Fotos do enterro de Raul Seixas (1), Raul com Os Panteras (2), Cine Roma entre 1954 a 2011 (3) e Carlos Silva em 1993 (4), reprodução jornal A Tarde (1 e 4).

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