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Há 25 anos o Real vencia a hiperinflação



Pouca gente lembra – e muitos nem tinham nascido, é verdade – mas neste mês de julho de 2019 não se comemora apenas os 75 anos do começo da participação efetiva do Brasil na Segunda Guerra Mundial e os 50 anos da chegada do homem à Lua. Uma outra conquista que mudou a vida de todos os brasileiros, mas que só quem viveu aqueles tempos tem a perfeita noção disso, completa 25 anos precisamente neste mês: a adoção do Real como moeda no Brasil.


O Real, precedido de um valor de referência para a transição do antigo Cruzeiro Novo, a URV – Unidade Real de Valor – era a bala de prata do governo para acabar com a hiperinflação. A quarta bala de prata seguida, para sermos exatos.



Para se ter ideia, naquela época os empresários não pagavam salários na sexta feira, quando a data de pagamento caia neste dia da semana, para que o dinheiro rendesse mais alguns dias aplicado no overnight. Já os trabalhadores corriam ao supermercado assim que recebiam o salário, pois sabiam que no dia seguinte quase todos os produtos já estariam mais caros. Para não perder dinheiro, os supermercados colocavam funcionários para virar a noite remarcando preços nas prateleiras, mas a prática era comum a qualquer hora do dia, sob o olhar atônito dos consumidores.


A situação parecia incontrolável, principalmente após do fracasso da tentativa de conter a inflação com os planos Cruzado (1986), Cruzado II (1989) e Collor (1990). Cenas como prateleiras vazias, filas para comprar produtos essenciais, denuncias e fiscalização ostensiva se tornaram frequentes. Chegou-se até a confiscar a poupança de todos, mas logo a inflação voltava a reinar absoluta na rotina dos brasileiros. Para quem gosta de índices comparativos, a inflação oficial chegou a superar 80% ao mês e atingiu 2.708% no ano de 1993. Era então nesta pindaíba que os brasileiros andavam.



Depois de várias mudanças de moedas em apenas quatro anos, é claro que o Real pegou o brasileiro cabreiro como um gato escaldado. Mas só de não precisar por um tempo correr que nem louco para comprar comida ou disputar lata de óleo no tapa já valia a tentativa. E era muito dinheiro para pouca compra. Antes da mudança, um simples cacetinho, que alguns chamam de pão francês, exigia que o vivente tirasse 275 cruzeiros reais da algibeira. No dia da conversão, 1º de julho de 1994, o Real chegou valendo a bagatela de 2.750 cruzeiros reais e dava para comprar de 10 a 20 cacetinhos na Cidade da Bahia.


O Real parecia uma moeda nova, mas o nome era velho. Havia vigorado em Portugual durante o período colonial e, após a independência, continuou a dar nome à bufunfa pátria por 120 anos. Na época era utilizada com a forma plural mais comum de réis, sendo as moedas mais valiosas chamadas de patacas e as subdivisões (centavos) de vinténs. Vigorou até que, no dia 05 de outubro de 1942, em plena Segunda Guerra Mundial, o presidente Getúlio Vargas instituiu o Cruzeiro.


O Cruzeiro e suas variações, como Cruzeiro Novo e Cruzeiro Real, durou 52 anos, e viveu vários cortes de zeros e reedições de cédulas e moedas. Simplificando esta história, o Cruzeiro criado em 1942 virou Cruzeiro Novo em 1967 e voltou a ser Cruzeiro (de novo) em 1970. Em 1986, o Cruzado surgiu com o plano econômico homônimo, sendo sucedido pelo Cruzado Novo em 1989. Mas, se parece pouco, o Cruzeiro voltou de novo em 1990 e foi substituído em 1993 pelo Cruzeiro Real.


Então quando o Real surgiu o barato era sinistro. Em poucos anos os fabricantes das antigas máquinas de escrever tiveram que trocar uma tecla várias vezes, alternando CR$, NCr, CR$, CrN$ e CR$, até chegas a R$. Não foi por isso que as máquinas de escrever acabaram, é certo, mas com o Real o Brasil conseguiu enfrentar com certa estabilidade os anos seguintes cheios de mudanças, como a chegada do computador, da internet e da telefonia móvel.


Após 25 anos, o país do futuro pode não ter chegado como esperávamos. Um real não compra mais 20 pães nem em sonho e R$ 100 de 1994 equivalem hoje a cerca de R$ 25. Mas você não precisa encerrar a leitura desta matéria e correr ao supermercado para não ver o seu dinheiro evaporar da noite para o dia.

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