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Fazer filas não é solução



Diogo Tavares*


A lógica, como o vinho, perde seu efeito benéfico quando tomada em quantidades exageradas. Começo por esta citação atribuída a Lord Dunsany (que teria falado na verdade do uísque) uma análise da mais recente medida adotada pela Prefeitura de Salvador para conter o avanço do coronavírus. Após ter acertado na maior parte das vezes e contar com apoio igualmente em boa escala, o prefeito ACM Neto anunciou, entre outras medidas, a proibição de que mais de uma pessoa de cada família entre em grandes supermercados, limitou o número de pessoas no interior destes estabelecimentos a uma para cada 9 metros quadrados e decretou que apenas a metade das vagas nos estacionamentos destas lojas poderá ser ocupada. Ou seja, se você acreditou que estava errado fazer estoque, agora vai ficar na fila para entrar no supermercado. Duas filas, já que provavelmente vai ter uma também para estacionar.


A mais recente aposta do prefeito contra a Covid-19, diz, se baseia em estudos e conta com apoio da sua equipe de saúde e da Fundação Oswaldo Cruz. Se justificaria porque as pessoas estariam indo ao supermercado em família para “passear”, como se fosse um shopping.


Não vi este passeio em nenhum dos supermercados em que fui nas últimas semanas. Vi pedintes. Portanto me permito avaliar que parte-se de exceções para ditar uma regra. Por outro lado atesto que duas pessoas podem fazer um mercado na metade do tempo que uma, e três possivelmente em um terço, reduzindo o período de exposição ao risco. E se cada família ficar mais tempo para comprar, mais tempo outras pessoas ficarão na fila para entrar no supermercado.


Na terça-feira, 14 de abril, testemunhei centenas de idosos, em fila sob o sol, na recém-inaugurada UBS de Itapuã, aguardando para tomar vacina contra a gripe. A vacina só chegou cerca de uma hora após a abertura do posto. No mesmo dia vi dezenas de lotéricas e agências da Caixa com grandes filas, provavelmente por causa do início do pagamento do benefício emergencial de R$ 600 por parte do governo federal. Antes mesmo do decreto, em pelo menos um supermercado, no Rio Vermelho, constatei pessoas esperando para entrar. Transferir o risco de contaminação para filas certamente não é uma solução para o problema.


É fato que os tempos pedem medidas difíceis, que isolamento não é férias e que há pessoas que desrespeitam as determinações. Mas também é certo de que impor normas sem discussão ou justificativa irrefutável arrasta o cidadão na direção da desobediência civil. E neste caso, meu caro prefeito, perdem todos.


*Diogo Tavares é jornalista, escritor, consultor de comunicação e cidadão momentaneamente recluso num apartamento. Foto de Marcos Serra Lima, com arte de Luiz Afonso Costa,.

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