Receba nossas atualizações

  • Cidade da Bahia
  • Ícone do Facebook Branco

© 2019 por Escriba Comunicação & Consultoria. Criado com Wix.com

  • Cidade da Bahia

Entrevista com o Papai Noel


Diogo Tavares*


Está encerrada, de uma vez por todas, qualquer dúvida: Papai Noel não só existe, como ainda por cima é brasileiro. Ele se chama Silva, é aposentado do INSS e, além de entregar presentes no Natal, faz bico em shoppings e ganha um extra como Judas no São João. Encontrá-lo foi uma tarefa muito difícil. O repórter precisou mandar dezenas de cartas ao Papai Noel e suportar as gozações do funcionário dos Correios. Mas valeu à pena.


Entre muitas revelações, Noel comenta a polêmica em que se envolveu há uns 15 anos ao aparecer na capa de uma revista masculina ao lado (ou melhor, atrás) de uma ex-dançarina de pagode seminua. Sobre o fato, ele é enfático: “As pessoas falam muito, mas elas precisam ver a coisa pelo meu ponto de vista”. Assim é Papai Noel, um brasileiro sempre disposto a dar uma mãozinha (ou as duas), mas que anda de saco cheio tanto de pessoas que acreditam que a terra e plana quanto dos que acham que um outro velhinho barbudo é o homem maio honesto do Brasil.


Pergunta: Sr. Papai Noel, a humanidade sempre questionou a sua existência, principalmente pelo fato de nem todo mundo receber presente no Natal. Por que isso acontece?


Resposta: Acho ótimo a oportunidade de explicar definitivamente este mal entendido. Como um pobre Papai Noel brasileiro, eu também tenho limitações. Tem a questão logística, sabe? Imagine subir morro ou descer barranco para entregar presente nestes barraquinhos de madeira. O telhado nem aguenta o peso, até porque o meu saco pesa uma tonelada. Não dá. Prédio de gente remediada ou rica é melhor, tem elevador. Então a gente faz o que pode. Além disso, há uma falta generalizada de chaminé. Você nunca se perguntou por que nesses países onde cai neve no Natal mais crianças ganham presentes? A chaminé é fundamental.


P: O sr. faz tudo sozinho?


R: Na verdade eu trabalho para uma multinacional, a Natal S.A., que providencia os detalhes.


P: E há trenós e renas suficientes para voar pelo mundo todo entregando presente?


R: Que trenó e rena voando? Você já viu veadinho voador? Você fumou?


P: O sr. pode explicar melhor como é o trabalho?


R: É tudo terceirizado. Nós entramos com o marketing, a estrutura intelectual, e milhões de pessoas fazem o resto por aí. A empresa gerencia o negócio de forma descentralizada. Nós tivemos essa grande ideia, como aquele menino do Google. Entendeu?


P: Mais ou menos. O sr. já entregou algum presente estranho?


R: Ih, meu filho, você nem imagina que tipo de coisa me pedem por aí! É tanto pedido estranho! Uma vez um menino me pediu pra ganhar na loteria mais de cem vezes. Achei estranho, mas o menino insistiu e ainda me apresentou uns coleguinhas. Só muito tempo depois é que eu soube que não eram meninos, mas anões. A gente também erra. Teve um outro que me pediu 51 milhões de reais, mas para deixar num apartamento vazio. Depois eu soube que deu merda. Também já teve gente ingrata, que pediu sitio e apartamento tríplex e depois disse que não era dela, mas não me devolveu, que seria o certo. Mais recentemente uma turma me pediu uma rachadinha, mas eu disse que esse presente só quem poderia dar é a Mamãe Noel. Ainda teve um homem fanho que me pediu um tênis bem grande, mas essa piada todo mundo já conhece.


P: Então não são apenas as crianças que ganham presente do sr.?


R: Não, de jeito nenhum! Veja só o caso de um juiz importante, realizado na profissão, que vivia modestamente, é verdade, com um pequeno salário de R$ 22 mil por mês e que reclamava que isso não dava nem pra pagar o cartão de crédito dele. Acontece que quando criança ele sempre quis ganhar uma Ferrari e um apartamento de luxo em Miami, mas o pai nunca deu. Cresceu com esse trauma. Eu entendi o problema dele e ajudei. Mandei um assessor de imprensa e um advogado. Um deles resolve.


P: É verdade que o sr. também é conhecido como São Nicolau?


R: Se alguém me acusar de ter um laranja vai ter que provar. Não aceito esse tipo de provocação. Depois vocês da imprensa reclamam quando respondem que vocês parecem viados, mandam fazer a pergunta para a mãe e a porra toda.


P: Desculpe, Papai Noel. Não foi minha intenção ofender. O que o sr. faz fora do período de Natal?


R: No Carnaval eu sou o Rei Momo, no São João eu sou Judas e na Páscoa o coelhinho. É uma dureza! O mais difícil é o período que eu tenho que passar a base de cenoura.


P: Para terminar, que recado o sr. mandaria para as pessoas que não acreditam que o sr. seja brasileiro?


R: Em que outro lugar do mundo poderia ter nascido um velhinho que, apesar de usar essa roupa ridícula quente pra caralho em pleno verão, fazer bico por não sobreviver com a aposentadoria, ver tanto filho da puta se fartando com o nosso dinheiro e viver de saco cheio, continuar sorrindo. Ho, ho, ho. Feliz Natal.


*Crônica publicada primeiramente no jornal Correio (dezembro de 2000) e contextualizada para o site Cidade da Bahia.