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Então se fez a folia

Ou o dia em que Tomé de Souza fundou Salvador e afundou o pé na jaca




Por Diogo Tavares*


Salvador, 30 de março de 1549


Comentou-se, a boca pequena, que na madrugada daquele dia Tomé de Souza foi visto nu, engatinhando de quatro, puxado pela coleira por três índias vestidas sumariamente com peças do traje dele. A história oficial não registra detalhes sobre o que teria sido um dos atos inaugurais do primeiro governador geral do Brasil, mas, como este não é um relato estritamente histórico e diante das pistas deixadas, podemos reconstituir os fatos com certa liberdade.


Os livros de fato atestam que a expedição comandada por Tomé de Souza chegara na véspera ao local, a Vila do Pereira, hoje chamado de Porto da Barra, com o objetivo de fundar a Cidade do Salvador. Eram cerca de mil lusitanos machos e três ou quatro criadas, devidamente isoladas do resto da tripulação, com função de servir aos mais nobres entre eles. Os viajantes, que deixaram o reino de Portugal em seis embarcações, eram, além dos representantes diretos do rei, cerca de 320 “homens d’arma” preparados pra guerra, seis religiosos sob comando do padre Manuel da Nóbrega, escrivães, construtores, marceneiros, ferreiros, artesãos, operários e mais de 600 colonos desterrados. Entenda-se por desterrados uma gama de profissionais liberais composta por homicidas confessos, perjuros flagrados, meliantes reincidentes, rufiões incorrigíveis, anarquistas violentos, devedores sem posses, jogadores inveterados, clérigos egressos, nobres deserdados, criados inconfidentes, espadachins vadios, bêbados insaciáveis, pecadores renitentes, cristãos novos recaídos e desprezadores dos bons costumes em geral. Tudo boa gente, que o padre Manuel da Nóbrega fez questão de fazer confessar antes do desembarque, deixando-os sem pecados para que assim pudessem habitar as terras do Novo Mundo.


Então, eis o desembarque apoteótico: em destaque o estandarte do reino, tendo na comissão de frente os comandantes e os nobres, com seus adereços reluzentes de prata e mangas coloridas de seda. Em seguida, com mortalhas negras e crucifixos, desfilam os religiosos, seguidos pela ala dos armeiros, portando lanças brilhantes e bandeirolas. Na outra ala, aparecem artesãos e operários, com suas roupas de domingo. Por fim, encerrando o cordão, passam os colonos desterrados, aos quais não fora dada a opção da escolha de embarcar ou não, a fim de liberar geral depois de passar meses trancados nos navios e possivelmente após outra rica temporada nas cadeias do reino. Tudo sob o som de uma bateria de tambores e 25 trombetas. Foi um sucesso sem precedentes entre os nativos, que nunca tinham visto aquele luxo. A reação deles seria descrita por um escrivão presente como “espanto de ver a majestade”. Principalmente para as índias, que estavam interessadas em um animal trazido pela expedição, que, devidamente escaldado, resultava numa sopa tida como afrodisíaca pelas muitas amantes de Diogo Caramuru. Para preparar potes de canja de galinha no dia seguinte, as índias acolheram os lusitanos com litros de cauim, bebida fermentada sobre a qual a maioria nunca tinha ouvido falar antes e da qual não conseguiria ou desejaria falar depois.


Em se tratando dos desterrados citados acima, após meses trancados, tal intercâmbio com aquelas índias nuas e a beberagem só poderia mesmo acabar esquentando mais do que o caldo. Ainda mais porque a castidade não era exatamente um costume naquela tribo. Então, eis que as índias resolvem testar as propriedades da sopa, encontram os portugueses animados, e inicia-se uma festa regada a muito cauim. Quem conseguisse lembrar de alguma coisa no dia seguinte poderia atestar a suruba. O próprio padre Manuel da Nóbrega - que estava na área, sabe-se lá fazendo o que - tratou de informar ao rei Dom João III em uma das primeiras cartas: “Tem-se cá que o vício da carne não é pecado”.


Apesar da ressaca, o entretenimento continuou nos dias seguintes e já ameaçava o progresso da cidade e a convivência pacífica entre brancos e nativos do sexo masculino, o que fez Manuel da Nóbrega, prudentemente, apelar em nova carta ao rei: “Parece-me coisa mui conveniente mandar Sua Alteza algumas mulheres que lá têm pouco remédio de casamento a estas partes, ainda que fossem erradas, porque casarão todas mui bem, com tanto que não sejam tais que tenham perdido vergonha a Deus e ao mundo”.


Temos aí, pois, que se fez a primeira capital do país com cauim, canja de galinha, colonos embriagados, índias ninfomaníacas, cornos de tanga e prostitutas casadas. Como se viu depois, estava garantido o Carnaval pelos próximos séculos.


*Do livro Notícias de uma terra dessemelhante

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