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Dois de fevereiro



José Jesus Barreto*

Na beira das águas do encontro rio/mar, em Buraquinho, vi de longe um grupo, de branco, ritmando cantos rituais em palmas, olhando, louvando e suavemente dançando perante o esverdeado, o quase dourado, o azul infinito desse domingo de luz intensa...

Aproximei-me devagar, tímido, reverente, respeitoso.

Quem puxava a cantoria, em iorubá, era uma bela senhora de pele negra, miúda e graciosa, sentada numa cadeira de plástico posta sobre a areia molhada. Vestia uma alvura de panos bordados, e sacudia o adjá com a mão direita, marcando o compasso. Estava arrodeada, abraçada, seguida e cuidada pelos seus filhos do Terreiro.

Mais que uma rainha, nela vi uma entidade ancestral pela luminosa energia que emanava. Aguardavam todos ali o retorno do barco que fora arriar o presente do Ilê no Mar - o balaio das oferendas a Yemanjá, a princesa de Ayocá -, em louvações e gratidão às águas, o Mar, divindade da Mãe Natureza.

Chegado o barco, finda ‘a obrigação’, aproveitei um instante, cheguei perto e pedi a benção à Yalorixá, que não conhecia. Ela sorriu, estendeu-me a mão enfeitada de anéis e braceletes, olhou-me nos olhos e disse com voz mansa, compassada e firme, mensagem de mãe:

- “Que seu Pai Oxalá lhe cubra com o manto branco da Paz e os todos os Orixás lhe acompanhem, estejam contigo, meu filho”.

Fui tomado por inteiro de uma emoção imensa, a pele arrepiada, e beijei-lhe as mãos em lágrimas. Meio paralisado, em êxtase, acompanhei com o olhar o caminhar dela na areia fofa, amparada por iniciados.

Dai, fui atraído, arrebatado pelo canto e atabaques que ecoavam de um grande caramanchão plantado na areia, próximo da capela da colônia de pescadores, repleto de gente vestida de branco, o chamado ‘povo-de-santo’ e devotos, de todas as idades, santa mistura baiana, em danças, saudações aos orixás e oferendas, muitas flores e o cheiro de alfazema tonteando. E quantas crianças a cantar, dançar, orgulhosas de suas origens!.

É essa a Bahia que amo.

Para aumentar o êxtase, andei pela areia, flutuando, respirando fundo os ventos da maresia e, mais adiante, arrisquei uns mergulhos. Precisava.

Senti-me em estado de graça.

Odoyá, minha Mãe !

Só tenho a louvar, louvar e agradecer, agradecer...

Êpa Babá, meu Pai !

Dá-me tua luz e tua paz, Oxalá.


*Jornalista e poeta dessa Bahia que amamos (2fev/2020) https://web.facebook.com/JosedeJesusBarreto

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