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Bando de Teatro Olodum comemora 30 anos


O Bando de Teatro Olodum (BTO) inicia oficialmente as comemorações dos seus 30 anos no dia 17 de outubro, às 19h, no Teatro Vila Velha. No evento será exibido o filme “Bando, um filme de:”, dirigido por Lázaro Ramos e Thiago Gomes. Serão apresentadas também as ações que o BTO desenvolverá de outubro de 2019 a dezembro de 2020. Dentre elas, destacam-se a montagem de um texto clássico do teatro mundial, lançamento de um catálogo da história do grupo, oficinas de performance negra na periferia da cidade, edição especial do “Festival a cena tá preta” e temporada de espetáculos de sucesso, como “Ó paí, ó”; “Áfricas” e “Cabaré da Rrrrraça”. A entrada para a exibição é gratuita.


Nestas três décadas, o Bando também se destacou como uma escola para artistas negros, tendo sido responsável pelo surgimento do ator, diretor e escritor Lázaro Ramos, do ator, cantor e humorista Érico Brás (Zorra, PopStar e Se Joga), das atrizes Luciana Souza (Bacurau) e Edvana Carvalho (Malhação), além da cantora Virginia Rodrigues. Companhia negra mais popular e de maior longevidade na história do teatro baiano e uma das mais conhecidas do país, o Bando de Teatro Olodum nasceu em 17 de outubro de 1990, em Salvador, a partir de uma parceria entre o diretor Marcio Meirelles e o Grupo Cultural Olodum.


Desde a fundação, o Bando teve autonomia para escolher o seu repertório e interferir de maneira autoral no processo criativo de cada trabalho. Nos primeiros anos, seus integrantes (todos negros) enfrentaram o estigma de que não são artistas e que representam no palco as suas próprias histórias de vida. Mas o preconceito não impediu que o grupo se impusesse e contribuísse de forma relevante para a inclusão de temas sociais e políticos na vida cultural baiana.


O primeiro espetáculo de estreou no dia 25 de janeiro de 1991, numa das salas de um casarão da antiga Faculdade de Medicina da Universidade Federal da Bahia, no Centro Histórico de Salvador. A comédia inaugural “Essa É Nossa Praia”, encenada por Marcio Meirelles e pela diretora francesa Chica Carelli (co-fundadora da companhia), chegou ao palco com 22 atores e definiu uma linha de trabalho na qual o Bando apresentava pontos de vista sobre o cotidiano sociocultural de Salvador, a cidade mais negra do país. A companhia também deu o primeiro passo para consolidar uma dramaturgia própria, com textos escritos por Meirelles a partir de improvisos do elenco.


Composta por personagens inspirados em tipos comuns das ruas do Pelourinho, a peça de estreia fez do humor um aliado e chamou atenção do público com temas de caráter contestatório, como intolerância religiosa, ideologia do branqueamento e marginalidade. Além da palavra, a música e a dança serviram de elos de comunicação e viraram marcas na trajetória do Bando. Esses dois alicerces ganharam ainda mais força como base estética e de linguagem do grupo com a chegada do diretor de movimento Zebrinha (1993) e do diretor musical Jarbas Bittencourt (1996).


Seis meses após lançar a primeira peça, a companhia levou ao palco a montagem “Onovomundo”, que fez uma incursão pelo sagrado, através da abordagem cênica das nações do candomblé presentes na cultura da Bahia. Em 1992, retornou ao universo do Pelourinho, desta vez voltando-se para dentro dos cortiços da área, a fim de pesquisar o material dramatúrgico de um dos seus maiores sucessos: a tragicomédia “Ó, pai, ó!” A mesma peça inspiraria, na década seguinte, um filme homônimo, dirigido em 2007 por Monique Gardenberg, e um seriado exibido pela TV Globo em 2008 e 2009 (com direção geral de Gardenberg), indicado ao Emmy Internacional, a grande premiação da tevê no mundo.


Também em 1992, o elenco fez a sua primeira temporada fora da Bahia. Levou ao Rio de Janeiro as peças “Essa É Nossa Praia”, “Ó Pai, ó!” e escolheu a capital fluminense para estrear “Woyzeck”, do dramaturgo alemão Georg Büchner (1813-1837). Na volta a Salvador, enfrentou uma maratona de ensaios para encenar, em 1993, uma das peças mais aguardadas do ano: a elogiada superprodução “Medeamaterial”, versão moderna do alemão Heiner Muller (1929-1995) para a tragédia grega milenar “Medéia”, de Eurípedes (480 a.C- 406 a.C), com a atriz convidada Vera Holtz no papel principal.


Em 1994, o Bando assumiu uma posição sobre as consequências sociais do projeto de recuperação do Centro Histórico de Salvador, posto em prática na época pelo governo baiano, veio a campo ouvir moradores do local e lançou “Bai bai Pelô”, completando a sua trilogia sobre o universo sociocultural do Pelourinho. A peça marcou a estreia do ator Lázaro Ramos no grupo e revelou a cantora baiana Virgínia Rodrigues.


A partir desse trabalho, o elenco solidificou a sua militância negra com temas que denunciavam de forma contundente a discriminação racial. Centrou foco na realidade social das invasões e favelas do país com “Zumbi” (1995), escrita em parceria com a dramaturga baiana Aninha Franco; no trágico episódio da “Chacina da Candelária” (RJ), em “Erê pra toda a vda/Xirê” (1996), o primeiro espetáculo de dança do Bando; na reflexão sobre negritude e consumo no fenômeno de popularidade “Cabaré da Rrrrrraça” (1997) e na violência urbana em “Relato de uma guerra que (não) acabou” (2002).


Ao longo do seu percurso, agregou ao repertório grandes textos da dramaturgia universal: inspirado em “A ópera de três vinténs”, de Bertolt Brecht (1898-1956) e Kurt Weill (1900-1950), montou as versões “Ópera de três mirréis” (1996) e “Ópera de 3 reais” (1998); discutiu a guerra em “Material Fatzer” (2001), de Brecht e Heiner Muller; e encheu de fusões com a cultura baiana o clássico “Sonho de uma noite de verão”, de William Shakespeare (1564- 1616), com o qual ganhou o Prêmio Braskem de Teatro, realizado anualmente em Salvador, de melhor espetáculo adulto de 2006.


Nas encenações de temática afrodescendente, merece destaque, ainda, “Áfricas” (2007), primeira montagem do seu repertório dedicada ao público infanto-juvenil, e “Bença” (2010), que reflete sobre o tempo e a morte.


A companhia tem representado o Brasil com suas peças em vários eventos internacionais, como o Out of Lift (London International Festival of Theatre) em Londres (1996), a Estação Cena Lusófona em Portugal (2003), a Semana de Teatro em Angola (2006) e a Copa da Cultura na Alemanha (2006). Além das incursões pela dança, cinema e televisão, o grupo tem dois livros publicados: “Trilogia do Pelô”, de Marcio Meirelles e “Bando de Teatro Olodum” (1995), e “O Teatro do Bando: Negro, Baiano e Popular” (2003), do jornalista Marcos Uzel. É também responsável pelas edições do Fórum Nacional de Performance Negra, em parceria com a Cia. dos Comuns (RJ).


*Fonte Enciclopédia Itaú Cultural

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