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Após US$ 20 bi em incentivos, Ford dá uma banana para o Brasil



Diogo Tavares*


Após décadas se beneficiando de incentivos fiscais e uma presença de mais de um século no país, a Ford anunciou nesta segunda-feira, 11 de janeiro, que vai deixar de fabricar automóveis no Brasil. Instalada no país desde 1919, a Ford inaugurou sua unidade de Camaçari, Bahia, em 2001, a primeira do gênero no Nordeste, após uma intensa negociação que resultou num pacote de fartos incentivos fiscais e generosas isenções. Somente a partir de 1999, a montadora acumulou incentivos fiscais de mais de 20 bilhões de dólares no Brasil.


Pego de surpresa com a notícia, o atual governo de Rui Costa (PT) se limitou a dizer que buscará uma solução no seu endereço preferido: o governo chinês. A ideia é aproveitar o leque de incentivos para atrair desta vez uma montadora chinesa. Repete a solução adotada para a sonhada e projetada ponte ligando a capital baiana à Ilha de Itaparica.


Além de uma pancada sem precedentes para a economia da Região Metropolitana de Salvador e da Bahia e a colocação de mais cinco mil brasileiros nas listas de desempregados, a saída da Ford representa um atestado de incompetência para todos os níveis governamentais, independente da facção política. Mostra que não houve exigências suficientes de “compromisso” com a vinda para a Bahia, não teve atuação do governo federal nos 16 anos do PT em reduzir o Custo Brasil e o governo Bolsonaro contribuiu para tornar o grau de confiança no futuro da economia brasileira uma piada com difícil representação estatística.


De quebra, a atitude covarde e oportunista da Ford ameaça colocar uma pá de cal num dos mais bem sucedidos projetos automotivos brasileiros surgidos nos últimos anos, com o fechamento da fábrica do jeep Troller no Ceará. A montadora nacional foi criada em 1995 e, após atingir uma produção média de 1,2 mil veículos por ano, foi comprada pela Ford em 2007.


Certamente a decisão da montadora mancha a memória de coragem e inovação de Henry Ford. Sindicatos cordeiros se limitam a falar em buscar vantagens para os demitidos e autoridades inoperantes sequer falam em ressarcimento dos benefícios ou retaliações. A única certeza é que seguimos ladeira a baixo, com a única opção de virarmos a parte lascada de um negócio da China.


*Diogo Tavares é jornalista e ex-editor de Economia do jornal Correio da Bahia. Foto premonitória de um protótipo construído com base no chassi de uma velha caminhonete Ford F-150 e exibido em salões automotivos nos Estados Unidos em 2014.

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